O cenário político internacional vive um de seus capítulos mais surreais: o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, está sob custódia dos Estados Unidos e enfrenta um julgamento por narcotráfico em Nova York. Enquanto isso, em seu país, milícias armadas leais ao regime, conhecidas como Coletivos, promovem uma caça aos cidadãos que ousaram comemorar publicamente a captura do líder.
Perseguição e Estado de Emergência na Venezuela
Na Venezuela, a resposta ao que o governo chama de "ato de guerra" foi imediata e violenta. Homens armados dos Coletivos, milícia civil criada durante a era bolivariana, estão realizando buscas casa a casa, especialmente verificando celulares em busca de qualquer conteúdo que apoie a ação americana. A ordem partiu de um decreto que declarou estado de emergência e autoriza uma "busca e captura em escala nacional" de simpatizantes da operação.
Um vídeo que circula nas redes mostra Diosdado Cabello, poderoso figura do regime com controle sobre órgãos de segurança e os próprios Coletivos, cercado por milicianos de preto que gritam "Leais sempre, traidores nunca". A aparição de Cabello, que também é acusado pelos EUA, sinaliza a reação coordenada do chavismo para manter o controle, mesmo com seu principal líder preso.
O Julgamento em Nova York e seus Personagens Inusitados
Do outro lado do Caribe, em um tribunal federal de Nova York, inicia-se um processo judicial que promete reviravoltas dignas de uma série de streaming. Maduro conta com a defesa de Barry Pollack, um dos melhores advogados criminais dos EUA, conhecido por defender figuras como Julian Assange e por ter conseguido a absolvição de um executivo da Enron.
O juiz responsável pelo caso é Alvin Hellerstein, de 92 anos, nomeado pelo ex-presidente democrata Bill Clinton. Uma das linhas de defesa já anunciadas é a alegação de imunidade, por Maduro ser um chefe de Estado estrangeiro. Especialistas não descartam a possibilidade de o juiz conceder liberdade sob fiança, o que permitiria ao venezuelano aguardar o julgamento em liberdade.
Nesse hipotético cenário, Maduro encontraria um ambiente ao menos parcialmente favorável. O novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, declarou publicamente que a captura foi "um ato de guerra" sem aprovação do Congresso americano. Grupos de simpatizantes da esquerda local já se mobilizam em seu apoio, causando perplexidade e revolta na numerosa diáspora venezuelana nos Estados Unidos.
A Geopolítica do Petróleo e a Pressão de Trump
Nos bastidores, a administração do presidente Donald Trump mantém a pressão máxima sobre Caracas. Um de seus principais assessores, Stephen Miller, afirmou ao site Politico que os EUA estão no controle por terem "militares estacionados fora do país" e imposto um "embargo total" ao petróleo venezuelano. A estratégia, segundo analistas, é forçar uma mudança de regime sem uma invasão militar em larga escala, que seria impopular.
Fontes do Politico revelaram que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, teria recebido três condições dos americanos: reprimir o tráfico de drogas, expulsar operadores iranianos e cubanos, e cessar a venda de petróleo a adversários dos EUA. É uma lista considerada impossível de cumprir, pois qualquer movimento nessa direção a tornaria alvo de Cabello e dos setores mais radicais do chavismo.
Enquanto a tensão geopolítica atinge seu ápice e os líderes venezuelanos vivem sob stress máximo, o próprio Maduro parece a figura mais tranquila. Sua primeira foto como detido, usando um conjunto de moletom da Nike, fez o modelo, avaliado em 260 dólares, esgotar nas lojas. A ironia não passa despercebida: o déspota acusado de levar seu país à miséria virou, involuntariamente, um ícone de moda em Nova York.
Para o povo venezuelano, porém, a realidade continua sombria. Após um breve momento de esperança com a prisão de Maduro, persiste o jugo da repressão, agora potencializada pela fúria dos Coletivos. A história que começou com uma concentração naval no Caribe e culminou com uma operação especial em Caracas agora se desdobra em um tribunal americano, mas o sofrimento de quem ficou para trás permanece, cruel e inalterado.