De Reagan a Trump: a guerra antidrogas dos EUA que mira a América Latina
Guerra antidrogas dos EUA: de Reagan a Trump na América Latina

De Reagan a Trump: a guerra antidrogas dos EUA que mira a América Latina

A política antidrogas dos Estados Unidos, desde Richard Nixon até Donald Trump, representa uma longa trajetória de intervenção internacional com profundos impactos na América Latina. Ao longo das décadas, essa abordagem tem sido marcada por sanções econômicas, invasões territoriais e ações diretas contra organizações criminosas, criando um cenário complexo de relações geopolíticas.

As origens da certificação e sanções

O modus operandi da Casa Branca em relação ao combate às drogas remonta ao final dos anos 1960 e início dos anos 1970, durante o governo de Richard Nixon. Porém, foi na década de 1980, sob a liderança de Ronald Reagan, que os países latino-americanos entraram definitivamente na mira da política externa norte-americana.

"Em 1986, o governo de Ronald Reagan passou a certificar os países que combatiam ou não o narcotráfico", explica Roberto Goulart de Meneses, professor associado do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Nacional de Brasília (UNB). "A partir disso, os Estados Unidos começaram a sancionar os países e a cassar vistos de presidentes".

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Essa política de certificação criou um mecanismo de pressão diplomática que persiste até os dias atuais, estabelecendo um padrão de condicionamento das relações internacionais às agendas antidrogas norte-americanas.

Casos emblemáticos: da Colômbia ao Brasil

Os efeitos das decisões de Reagan continuaram a reverberar mesmo após sua saída da Presidência. Em 1996, durante o governo de Bill Clinton, o então presidente colombiano Ernesto Samper teve seu visto de entrada nos Estados Unidos revogado devido a acusações de suposto financiamento de campanha pelo cartel de Cali.

Meneses destaca que Samper não tinha relação comprovada com o tráfico e compara o caso com um episódio mais recente envolvendo o Brasil. Em 2019, o segundo sargento Manoel Silva Rodrigues foi preso no aeroporto de Sevilha, na Espanha, por transportar quase 40 kg de cocaína em uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB).

"Uma situação como essa poderia implicar até mesmo o presidente da República em questão", alerta o especialista. "O militar foi pego na Espanha, tinha cocaína no avião, mas não era do presidente. É um caso similar ao que aconteceu com Samper".

Inimigos históricos e invasões territoriais

No século passado, os narcotraficantes colombianos se tornaram os principais alvos dos Estados Unidos. Pablo Escobar, uma figura icônica do crime organizado, mantinha até listas de americanos marcados para morrer, incluindo integrantes do governo, empresários e jornalistas envolvidos no combate às drogas.

O conflito antidrogas também foi marcado por intervenções militares diretas. No final dos anos 1980, os Estados Unidos invadiram o Panamá para capturar o então líder Manuel Noriega, acusado de permitir que traficantes colombianos usassem o país como rota para as drogas destinadas ao território norte-americano.

Noriega foi condenado a 40 anos de prisão por tráfico, lavagem de dinheiro e extorsão, tendo sua pena reduzida para 17 anos. Ele morreu em 2017, em prisão domiciliar no Panamá, após enfrentar condenações adicionais na França e em seu país de origem.

Os novos alvos: cartéis mexicanos e Tren de Aragua

Na atualidade, o governo americano comandado por Donald Trump classificou cartéis mexicanos - especificamente o Jalisco Nova Geração e o Sinaloa - e o Tren de Aragua, organização criminosa venezuelana, como narcoterroristas. Há indicações de que organizações brasileiras como o Primeiro Comando Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) possam seguir o mesmo caminho.

Após essas classificações, os Estados Unidos intensificaram ações contra esses grupos, incluindo a invasão da Venezuela para capturar o ditador Nicolás Maduro e o bombardeio de embarcações associadas ao Tren de Aragua.

Informações obtidas junto à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) revelam que os cartéis mexicanos ampliaram sua atuação no Brasil, aproveitando-se do alto consumo de drogas no país e atuando através da fronteira com o Paraguai.

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Já os venezuelanos do Tren de Aragua estabeleceram parcerias com o PCC para atuar a partir do Norte brasileiro, com intenso fornecimento de armas em troca. O grupo também tem presença nos estados do Sul - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - buscando áreas de fronteira onde o espanhol facilita a comunicação.

Lideranças milionariamente procuradas

A preocupação americana com o crescimento do Tren de Aragua é tamanha que a administração Trump oferece recompensas de até 12 milhões de dólares (equivalente a 63 milhões de reais na cotação atual) por informações sobre os líderes do grupo.

A principal liderança da facção venezuelana é Hector Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como Niño Guerrero, de 41 anos, já monitorado por polícias da Venezuela, Colômbia, Equador, Chile, Peru, Brasil e Estados Unidos. Condenado por homicídios, tráfico e contrabando, Guerrero tem uma recompensa de 5 milhões de dólares (27 milhões de reais) por informações.

"Niño Guerrero está envolvido em atividades criminosas há mais de duas décadas e transformou o Tren de Aragua de uma gangue prisional envolvida em extorsão e suborno em uma organização com crescente influência em todo o Hemisfério Ocidental", afirma o Departamento do Tesouro dos EUA.

Entre seus aliados mais próximos está Yohan José Romero, conhecido como Johan Petrica, de 47 anos, responsável pelos esforços ilegais de mineração do grupo na Venezuela e pelo fornecimento de armas de nível militar. Um terceiro criminoso de destaque é Giovanni Vicente Mosquera Serrano, de 37 anos, que entrou na lista dos 10 mais procurados do FBI em julho de 2026.

Números alarmantes e um conflito sem fim

De acordo com dados atualizados do governo dos Estados Unidos, mais de 5 milhões de comprimidos de fentanil foram apreendidos em território americano apenas em 2026. Já a apreensão de metanfetamina aproxima-se de 700 mil comprimidos somente neste ano.

Esses números impressionantes evidenciam a escala do problema e a complexidade do combate ao narcotráfico. A guerra às drogas, que atravessa décadas e administrações presidenciais distintas, mostra-se como um conflito de longa duração, com raízes profundas e ramificações internacionais cada vez mais complexas.

A política antidrogas norte-americana continua a evoluir, mas mantém seu foco na América Latina como região estratégica para o controle do fluxo de substâncias ilícitas. As táticas podem ter se sofisticado, mas a essência do confronto permanece: uma batalha transnacional com consequências humanas, políticas e econômicas que transcendem fronteiras e gerações.