A Europa está se mobilizando para responder a uma possibilidade que vem causando tensão geopolítica: a ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de anexar a Groenlândia. Lideradas pela França e Alemanha, nações aliadas trabalham em um plano de resposta conjunto, caso a intenção americana se concretize.
Articulação europeia em Paris
O assunto ganhou caráter de urgência e deve ser discutido nesta quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, durante uma cúpula sobre a guerra na Ucrânia, realizada em Paris. O ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Noël Barrot, confirmou que o tema será abordado em uma reunião com chanceleres da Alemanha e da Polônia ainda no mesmo dia.
"Queremos agir, mas queremos fazer isso em conjunto com nossos parceiros europeus", declarou Barrot à rádio France Inter. A posição foi ecoada por uma fonte do governo alemão, que afirmou à Reuters que Berlim está "trabalhando em estreita colaboração com outros países europeus e com a Dinamarca nos próximos passos em relação à Groenlândia".
Renovação das ameaças e impacto na Otan
A Casa Branca confirmou na terça-feira, 6 de janeiro, que o governo debate publicamente opções para incorporar a Groenlândia aos Estados Unidos. A administração Trump reiterou que não descarta o uso das Forças Armadas se considerar a medida necessária para proteger interesses de segurança nacional.
Essas ameaças renovadas ganharam peso após a recente intervenção militar americana na Venezuela, aumentando a preocupação entre os aliados europeus. A anexação da Groenlândia, atualmente um território autônomo do Reino da Dinamarca, teria um impacto profundo na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança da qual tanto EUA quanto Dinamarca são membros, e aprofundaria as desavenças entre Trump e líderes europeus.
No entanto, o chanceler francês, Jean-Noël Barrot, sugeriu que uma operação militar direta pode ter sido descartada. Ele afirmou ter conversado com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, que teria negado essa abordagem. "Ele descartou a possibilidade de uma invasão (da Groenlândia)", disse Barrot.
Interesse estratégico e riquezas minerais
A ideia de adquirir a Groenlândia não é nova. Ela surgiu pela primeira vez em 2019, durante o primeiro mandato de Trump, que sempre viu a ilha como fundamental para a estratégia militar dos EUA. Localizada estrategicamente entre a Europa e a América do Norte, a Groenlândia é um ponto crucial para o sistema de defesa antimíssil balístico americano há décadas.
Além da importância militar, sua riqueza mineral é um atrativo central. Washington tem ambições de reduzir sua dependência da China no setor de minerais críticos, e a Groenlândia possui vastas reservas. Trump tem alegado que navios russos e chineses estariam rondando as águas da ilha, insinuando um perigo que justificaria uma ação americana – alegação veementemente contestada pela Dinamarca.
O ministro das Relações Exteriores dinamarquês, Lars Lökke Rasmussen, junto com sua homóloga groenlandesa, Vivian Motzfeldt, solicitou uma reunião urgente com Marco Rubio. "A gritaria precisa ser substituída por um diálogo mais sensato. Agora", escreveu Rasmussen nas redes sociais. Ele também desmentiu a narrativa sobre presença hostil na região, afirmando que dados de rastreamento não mostram navios chineses ou russos perto da Groenlândia.
Enquanto isso, um alto funcionário americano disse que Trump e seus assessores discutem várias maneiras de adquirir o território, incluindo uma compra. Tanto o governo da Groenlândia quanto o da Dinamarca já deixaram claro que o território não está à venda. A maior ilha do mundo, com apenas 57 mil habitantes, se tornou o epicentro de uma crise diplomática que testa os limites das alianças ocidentais.