EUA deixam 66 organizações internacionais; especialista alerta para risco de cooptação
EUA saem de 66 organizações, incluindo 31 da ONU

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto executivo determinando a retirada do país de 66 organizações internacionais. A medida, anunciada oficialmente pela Casa Branca nesta quinta-feira (8 de janeiro de 2026), tem como justificativa a proteção dos interesses norte-americanos, que, segundo o governo, estariam sendo contrariados pela atuação dessas entidades.

Detalhes da decisão e impacto no sistema da ONU

Dentre as 66 organizações listadas no decreto presidencial, 31 estão diretamente vinculadas ao sistema das Nações Unidas (ONU). A Casa Branca já divulgou a lista completa das entidades afetadas, marcando um passo significativo na política externa unilateral que tem caracterizado a administração Trump. A saída implica na cessação de contribuições financeiras e na participação política dos EUA nestes fóruns multilaterais.

Em comunicado, o governo americano foi direto ao afirmar que a retirada ocorre porque as organizações "operam de maneira contrária aos interesses dos Estados Unidos". A decisão interrompe décadas de engajamento e liderança financeira norte-americana em várias agências e programas internacionais.

Especialista aponta riscos geopolíticos e de influência

Em entrevista ao programa Conexão Record News, a doutora em Direito e membro da Academia Suíça de Direito Internacional, Clarita Maia, analisou as potenciais consequências da medida. Ela destacou que os Estados Unidos sempre foram o maior financiador do sistema das Nações Unidas.

"À medida em que os EUA deixam de contribuir, esse espaço passa a ser preenchido por outras potências, como a China", explicou Maia. Segundo ela, países que desejam ampliar sua influência global estão prontos para aumentar seu aporte financeiro e político nessas organizações.

O perigo da cooptação de funcionários públicos

O alerta principal da especialista gira em torno do que a Teoria da Escolha Pública prevê: o risco de cooptação de agendas e de funcionários. Maia argumenta que, com a mudança no fluxo de financiamento, a lealdade dentro das burocracias internacionais pode se deslocar.

"Se os funcionários têm a noção de que um determinado país é responsável pelo pagamento do seu bom salário em dólar, provavelmente esse funcionário não vai querer contrariar as vontades desse país", ponderou. Ela ressaltou que os funcionários internacionais, como qualquer outro, estão sujeitos a influências, positivas e negativas.

Portanto, a pesquisadora vê uma "possibilidade muito grande de cooptação de agendas e cooptação ideológica", uma vez que o vácuo de poder e financiamento deixado pelos EUA será ocupado por nações que são, em muitos casos, seus adversários geopolíticos diretos. O resultado pode ser uma reorientação das prioridades e dos programas dessas organizações, alinhando-se mais aos interesses dos novos patrocinadores.

A decisão de Trump marca um capítulo importante no reposicionamento dos Estados Unidos no cenário global, com efeitos que devem reverberar na governança internacional, nas relações entre as grandes potências e na própria eficácia das instituições multilaterais nos próximos anos.