Em uma análise contundente sobre a recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, o renomado cientista político Michael L. Ross aponta que a ação revela uma prioridade clara: o acesso ao petróleo, e não a restauração da democracia. Professor da Universidade da Califórnia e autor do seminal "A Maldição do Petróleo", Ross argumenta que a estratégia do governo Trump repete padrões históricos que tendem a perpetuar o autoritarismo em países ricos em recursos.
A "Maldição do Petróleo" e o Caso Venezuelano
Michael L. Ross é uma voz central no debate sobre como a abundância de recursos naturais, especialmente o petróleo, corrói instituições democráticas. Sua tese, detalhada em seu livro, demonstra que quando o Estado controla grandes rendas petrolíferas, os governantes passam a depender menos dos impostos da sociedade. Com dinheiro fácil, é possível comprar apoio político, cooptar elites e garantir a lealdade das forças armadas, enfraquecendo a prestação de contas e a transparência.
Para Ross, a Venezuela é um exemplo quase didático desse mecanismo. Há três décadas, o país era considerado um modelo de gestão responsável do setor petrolífero. Esse cenário começou a ruir com a ascensão de Hugo Chávez e foi acelerado pela disparada dos preços do petróleo nos anos 2000, que amplificou enormemente o poder de quem controlava a renda. Ross também destaca o papel dos Estados Unidos, que "quase certamente" estiveram envolvidos em tentativas de desestabilizar o governo Chávez, enfraquecendo ainda mais os freios e contrapesos democráticos no país.
A Intervenção Americana: Petróleo em Primeiro Lugar
É nesse contexto que a leitura de Ross lança uma luz crítica sobre a operação que resultou na captura de Nicolás Maduro. O cientista político observa um detalhe crucial: em nenhum momento o presidente Donald Trump fala sobre restaurar a democracia, reconstruir instituições ou fortalecer a representação política na Venezuela. A democracia está ausente do discurso oficial.
"O foco é simplesmente ampliar o acesso dos Estados Unidos à riqueza petrolífera do país, aumentar a parcela das rendas do petróleo que vai para empresas americanas e, muito provavelmente, alterar a política externa da Venezuela", afirma Ross. Questões como governança, redução da corrupção, melhoria do padrão de vida ou maior responsabilização do governo não fazem parte da agenda, segundo sua avaliação.
Paralelos Perigosos: Iraque e Líbia
Ross alerta para os riscos de intervenções guiadas por interesses energéticos, citando os exemplos do Iraque e da Líbia. Nessas nações, a derrubada dos governos levou a anos de guerra civil e violência extrema. A principal diferença, ele pondera, é que nesses casos os EUA destruíram o alto comando militar, levando ao colapso do Estado. Na Venezuela, a estratégia parece ser remover apenas Maduro, mantendo o aparato estatal. Contudo, o resultado final permanece imprevisível.
O acadêmico também critica a visão econômica por trás da ação. Para ele, Trump possui uma compreensão "primitiva" e "mercantilista", típica dos séculos XVIII e XIX, acreditando que simplesmente produzir mais petróleo tornará os venezuelanos mais ricos. Ross considera ingênuo pensar que empresas petrolíferas farão os massivos investimentos de longo prazo necessários em um país ainda instável e com infraestrutura deteriorada.
Em resumo, a análise de Michael L. Ross oferece um alerta sombrio: sem um compromisso explícito e prioritário com a construção de instituições democráticas fortes e com o bem-estar social, intervenções como a dos EUA na Venezuela tendem apenas a redistribuir o controle sobre a renda petrolífera, sem libertar o país do ciclo de autoritarismo instaurado pela própria "maldição do petróleo". A ação, em sua visão, prioriza a geopolítica e os hidrocarbonetos em detrimento da soberania e da liberdade do povo venezuelano.