Venezuela e EUA reatam laços após queda de Maduro: petróleo e presos políticos em pauta
EUA e Venezuela reatam relações após queda de Maduro

Um novo capítulo nas relações internacionais começa a ser escrito neste sábado, 10 de janeiro de 2026. Venezuela e Estados Unidos deram início a um processo formal para restabelecer seus laços diplomáticos, rompidos desde 2019. A mudança histórica ocorre após a queda do presidente Nicolás Maduro, capturado em uma operação no início do mês, e marca uma reviravolta em uma das relações mais turbulentas do continente americano.

O caminho para a reaproximação

Diplomatas norte-americanos já estão em solo venezuelano. Eles chegaram a Caracas na sexta-feira, 9 de janeiro, com a missão de avaliar uma retomada gradual dos vínculos entre os dois países, conforme confirmado pelo Departamento de Estado dos EUA. Em contrapartida, o governo interino da Venezuela, liderado por Delcy Rodríguez, também enviará uma delegação aos Estados Unidos.

O processo, no entanto, não significa uma mudança imediata de regime. A situação política segue complexa. Edmundo González Urrutia, candidato que alega ter vencido as eleições presidenciais de 2025, pediu, do exílio na Espanha, o reconhecimento explícito de sua vitória, que atribui a uma fraude de Maduro. Sua mentora, a líder oposicionista e Nobel da Paz María Corina Machado, terá um encontro crucial com o presidente Donald Trump na próxima semana.

Petróleo e a libertação de presos políticos

Dois pontos centrais dominam as negociações: a reativação econômica e os direitos humanos. O acordo inclui um plano para reativar a combalida indústria petrolífera venezuelana, que possui as maiores reservas do planeta mas opera com capacidade drasticamente reduzida. Atualmente, o país extrai apenas cerca de um milhão de barris por dia, menos de um terço de sua produção no auge.

Em um encontro na Casa Branca com executivos de cerca de vinte empresas do setor, Trump afirmou que os Estados Unidos vão decidir quais empresas entrarão no país para operar. Anteriormente, ele havia mencionado um potencial investimento de até 100 bilhões de dólares. A estatal PDVSA já sinalizou uma operação conjunta bem-sucedida com Washington após a apreensão de um navio petroleiro, o Olina, no Caribe.

Paralelamente, começou a libertação gradual de presos políticos. A oposição relata cerca de dez solturas, incluindo nomes como o ex-candidato presidencial Enrique Márquez, a ativista Rocío San Miguel e quatro cidadãos espanhóis. A ONG Foro Penal contabilizava, até meados da semana, 806 detidos por motivos políticos na Venezuela.

A espera pelas libertações, porém, é angustiante para as famílias. Muitas passaram a noite de sexta para sábado em acampamentos improvisados em frente à prisão El Rodeo I, na expectativa de reencontrar seus entes queridos.

Ceticismo e reações regionais

Apesar dos avanços, o ceticismo permanece. Trump afirmou que cancelou uma segunda onda de ataques à Venezuela devido ao processo de libertações, mantendo uma postura de pressão. Ele também declarou conduzir os destinos do país e ter boa sintonia com Delcy Rodríguez, que nega qualquer subjugação de seu governo aos EUA.

Internamente, apoiadores do chavismo se mobilizaram pelo sexto dia consecutivo em Caracas para exigir a libertação de Nicolás Maduro, capturado em 3 de janeiro junto com sua esposa, Cilia Flores. Ambos foram transferidos para Nova York para responder por acusações de tráfico de drogas.

A reviravolta venezuelana ecoou pela região. Trump intensificou a pressão sobre Colômbia e México, ameaçando ataques terrestres contra cartéis de drogas, mas depois aparou arestas com o presidente colombiano Gustavo Petro em uma ligação telefônica. O papa Leão XIV manifestou preocupação com as tensões e pediu que se respeite a vontade do povo venezuelano. Na Nicarágua, aliada de Maduro, pelo menos 61 pessoas foram presas por expressarem apoio à sua captura nas redes sociais.

O futuro da Venezuela, portanto, se desenha em um delicado equilíbrio entre a esperança de normalização e a desconfiança histórica, com o petróleo e a liberdade servindo como moedas de troca nessa complexa reconstrução diplomática.