Em um episódio que revela as complexas fissuras no regime venezuelano após a prisão de Nicolás Maduro, o embaixador da Venezuela no Brasil, Manuel Vadell, nomeado pelo próprio ditador, tem distribuído uma análise profundamente crítica ao chavismo para políticos brasileiros. O fato ocorre em contraste com sua aparição pública, no último sábado (3), em um ato de esquerda em Brasília contra a ação militar dos Estados Unidos.
O duplo papel do embaixador nomeado por Maduro
Manuel Vadell foi designado por Nicolás Maduro para o cargo em dezembro de 2022. Horas após a captura do ditador e de sua esposa, ele compareceu a uma manifestação em frente à embaixada venezuelana na capital federal. No evento, que reuniu movimentos políticos e estudantis de esquerda, Vadell vestia uma jaqueta em homenagem a Maduro e recebeu apoio dos grupos presentes.
Na ocasião, a embaixada emitiu uma nota oficial condenando os "ataques perversos" ordenados pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump. O comunicado afirmava que as ações não eram apenas contra a paz, mas também contra a soberania sobre os recursos naturais e a estabilidade do continente.
Porém, em conversas reservadas com interlocutores brasileiros, o mesmo embaixador adotou um tom radicalmente diferente. A políticos que o procuraram para entender a operação militar que prendeu Maduro e empossou a então vice-presidente Delcy Rodriguez, Vadell enviou uma análise textualmente antichavista via WhatsApp.
O conteúdo da análise crítica compartilhada em sigilo
O documento compartilhado pelo embaixador começa com uma afirmação contundente: "O poder real está, todavia, nas mãos do chavismo armado, não da oposição civil." O texto argumenta que transições difíceis são negociadas com quem tem poder para "apagar ou reacender o incêndio", e não necessariamente com quem detém a razão moral.
A análise enumera as razões pelas quais os Estados Unidos teriam apoiado a ascensão de Delcy Rodriguez ao poder. Segundo o texto, os pontos são:
- Continuidade administrativa: Garantia do funcionamento de ministérios, da estatal petrolífera PDVSA, dos bancos e dos portos.
- Canal direto com o poder duro: Sua conexão com militares, o aparato de inteligência e os "colectivos" (grupos paramilitares pró-regime).
- Capacidade de entregar algo: Como informação, desmobilização de forças, assinaturas e ordens.
O material descreve um processo pós-Maduro em três fases: primeiro, o "controle do caos"; depois, uma "reacomodação do poder", integrando civis, técnicos e "agentes aceitáveis" como Edmundo González (candidato derrotado por Maduro na eleição contestada de 2024); e, por fim, uma etapa de "legitimação", com eleições e a participação da líder oposicionista e Nobel da Paz, Maria Corina Machado.
Origem do texto e reverberação nas redes
A análise distribuída por Vadell é praticamente idêntica a um texto publicado pelo portal argentino de notícias Canal 26. O autor é o jornalista venezuelano David Placer, radicado em Madri e conhecido por livros críticos ao regime, como "O ditador e seus demônios: a seita de Nicolás Maduro".
O conteúdo ganhou ampla circulação nas redes sociais, sendo reproduzido no X (antigo Twitter), Facebook e Instagram. No WhatsApp, recebeu o marcador de "mensagem encaminhada com frequência", indicando seu viralização.
Um trecho destacado da análise adverte: "O erro emocional do venezuelano é crer que 'se caiu Maduro, agora mandam os bons'. Não. Primeiro mandam os que podem evitar que o país se queime." O texto ressalta que isso não significa que Maria Corina Machado esteja "fora" do processo, mas que a sequência de comando segue uma lógica de realpolitik.
O que revela o duplo discurso diplomático
A postura dupla do embaixador Manuel Vadell é um sinal claro da calibragem narrativa em curso entre remanescentes do governo chavista. A análise que ele dissemina é inegavelmente simpática à derrubada do regime, indicando um alinhamento tático com a nova realidade.
Essa movimentação ecoa a carta aberta enviada pela própria presidente em exercício, Delcy Rodriguez, a Donald Trump, na qual propõe "cooperação" com Washington. O episódio sugere que a adaptação da narrativa oficial à deposição de Maduro pode se tornar uma constante nos próximos capítulos da crise venezuelana, tanto dentro do país quanto em suas representações diplomáticas no exterior, como a do Brasil.
A situação coloca o Itamaraty e a política externa brasileira diante de um interlocutor complexo, que oficialmente representa um governo deposto, mas que, nos bastidores, já opera com um roteiro pós-chavista.