Peru realiza eleições presidenciais com recorde de 35 candidatos e cenário de incerteza
Eleições no Peru: 35 candidatos e cenário de incerteza total

Peru enfrenta eleição histórica com 35 candidatos e futuro incerto

Os eleitores peruanos comparecem às urnas neste domingo (12) para escolher o próximo presidente do país em uma disputa que se destaca pelo recorde de candidaturas e pela completa falta de clareza sobre o resultado final. Com 35 postulantes à presidência, esta eleição simboliza a profunda fragmentação do sistema partidário peruano, que se encontra enfraquecido e desacreditado perante a população.

Pulverização eleitoral sem precedentes

As pesquisas eleitorais revelam um cenário de extrema dispersão, onde nenhum dos principais candidatos consegue ultrapassar sequer a barreira dos 20% das intenções de voto a poucos dias da eleição. Esta pulverização de preferências significa que, na prática, não existe um líder consolidado na corrida presidencial - todos os candidatos apenas sobrevivem em uma campanha marcada pela incerteza.

Se nenhum dos postulantes alcançar metade dos votos válidos, a eleição seguirá para um segundo turno, previsto para ocorrer em junho (12). Esta possibilidade parece cada vez mais provável diante da fragmentação observada nas pesquisas de opinião.

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Os principais contendores da direita peruana

Entre os 35 candidatos, três figuras se destacam no campo da direita, embora com percentuais modestos nas pesquisas:

  • Keiko Fujimori aparece com aproximadamente 15% das intenções de voto, segundo levantamento da Ipsos-Peru 21. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, esta é sua quarta tentativa de chegar ao poder, demonstrando tanto uma base eleitoral fiel quanto a incapacidade do fujimorismo de renovar suas lideranças.
  • Carlos Álvarez surge logo atrás com cerca de 8%. Humorista e roteirista, ele representa o modelo de "outsider" levado ao extremo, definindo-se simultaneamente como "de direita, de esquerda e de centro". Entre suas propostas mais polêmicas estão a implementação da pena de morte e a retirada do Peru da Convenção Americana de Direitos Humanos.
  • Rafael López Aliaga aparece com aproximadamente 7% das intenções de voto. Ex-prefeito de Lima e representante de uma direita ultraconservadora, o candidato católico fervoroso afirma praticar autoflagelação com cilício para evitar tentações sexuais e declara não manter relações sexuais desde 1981.

Completando este cenário complexo, o empresário e ex-prefeito de Lima, Ricardo Belmont, de 80 anos, aparece em empate técnico com Álvarez e Aliaga em alguns levantamentos, acrescentando mais uma variável à já complicada equação eleitoral.

Consequências parlamentares da fragmentação

A extrema atomização das preferências eleitorais terá reflexos diretos na composição do próximo Congresso peruano. O Parlamento que emergir destas eleições será formado por múltiplos pequenos grupos políticos, o que significa que o próximo presidente não contará com maioria própria para governar, perpetuando um dos principais problemas da política peruana contemporânea.

Década de instabilidade política profunda

O Peru chega a estas eleições após uma década marcada por crises políticas sucessivas. Nos últimos dez anos, o país teve nove presidentes - três eleitos e sete interinos. O mandatário que será escolhido neste domingo será o décimo em apenas uma década, um recorde que ilustra a volatilidade institucional peruana.

Histórico trágico de presidentes

Todos os presidentes eleitos no século XXI no Peru foram parar na prisão por escândalos de corrupção, com uma exceção que tentou um autogolpe de Estado. Um episódio que parece saído do realismo fantástico ilustra bem esta instabilidade: os retratos oficiais do penúltimo presidente, José Jerí, ficaram prontos exatamente na semana de sua destituição. Os quadros foram entregues nos ministérios minutos depois de o Congresso votar seu impeachment - mal chegaram às paredes, e o presidente já tinha deixado o cargo.

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Sistema político peculiar e problemático

O Peru opera sob um sistema político peculiar que não é nem presidencialista puro nem parlamentarista, mas uma combinação bizarra de ambos. Quando um presidente conta com maioria parlamentar, como ocorreu entre 2000 e 2016 com Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Alan García, o governo flui com relativa tranquilidade. No entanto, a partir de 2015-2016, escândalos de corrupção envolvendo o caso Odebrecht atingiram em cheio os grandes partidos políticos.

  1. Alejandro Toledo fugiu para os Estados Unidos, foi posteriormente extraditado, julgado em Lima e atualmente encontra-se preso.
  2. Ollanta Humala também está preso por acusações de corrupção.
  3. Alan García preferiu cometer suicídio quando a polícia chegou para detê-lo.

Ciclo de destituições presidenciais

Em 2016, com os partidos tradicionais em crise, Pedro Pablo Kuczynski assumiu a presidência sem maioria parlamentar, iniciando o ciclo de fragmentação que ainda assola o país. Em 2018, Kuczynski foi destituído em um escândalo que também atingiu o principal partido de oposição, liderado pela família Fujimori. Seu vice assumiu, mas também foi destituído posteriormente.

Este processo gerou um enfraquecimento imenso dos presidentes perante o Poder Legislativo. O Parlamento se acostumou a derrubar presidentes, especialmente porque as normas para impeachment são relativamente rápidas no Peru.

Em 2021, Pedro Castillo foi eleito com um partido minoritário no Congresso. Um ano depois, tentou um autogolpe de Estado, fracassou, foi destituído e preso. Sua vice, Dina Boluarte, assumiu, mas sem apoio parlamentar, foi destituída no ano passado. José Jerí governou por apenas quatro meses antes de ser substituído interinamente por José María Balcázar.

Nada no horizonte político peruano indica que esta instabilidade crônica chegará ao fim com as eleições deste domingo. Pelo contrário, todos os sinais apontam para a continuação deste ciclo de fragilidade institucional, independentemente de quem vença a disputa presidencial.