Delcy Rodríguez reage a Trump e afirma que Venezuela não tem 'agente externo'
Delcy Rodríguez nega controle externo sobre a Venezuela

Em um pronunciamento televisivo carregado de simbolismo político, a nova líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, fez sua primeira declaração oficial nesta terça-feira, 6 de janeiro de 2026. A mensagem foi uma resposta direta às recentes afirmações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que declarou ter controle sobre o futuro do país sul-americano.

Uma resposta firme à pressão internacional

Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente e aliada histórica de Nicolás Maduro, assumiu o comando interino em meio a uma crise sem precedentes. A transição de poder ocorre após a captura do ex-presidente Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos. Os dois foram acusados de narcotráfico e transferidos para uma penitenciária em Nova York.

"O governo venezuelano governa o nosso país, ninguém mais. Não há nenhum agente externo governando a Venezuela", afirmou Rodríguez de forma enfática durante o discurso transmitido pela televisão estatal. A declaração foi proferida apenas um dia depois de ela ter tomado posse no Parlamento, dominado pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Disputa pela legitimidade e tensões internas

Enquanto Rodríguez buscava projetar uma imagem de normalidade institucional em Caracas, do outro lado, em Nova York, Nicolás Maduro declarava-se inocente perante a justiça americana. O ex-presidente, que se autointitulou um "prisioneiro de guerra", reiterou que continua sendo o presidente legítimo da Venezuela, alimentando uma disputa direta pela sucessão e ampliando as fissuras internas no movimento chavista.

No Parlamento venezuelano, a abertura da legislatura 2026-2031 foi marcada por um tom de lealdade a Maduro. O deputado Pedro Carreño, ao comunicar o início dos trabalhos à Suprema Corte, descreveu a sessão como ocorrida sob "fervor patriótico" e lamentou a ausência de Cilia Flores, a quem chamou de "sequestrada".

Pressão de Washington e cenário de instabilidade

A retórica de soberania de Delcy Rodríguez esbarra em uma realidade de forte pressão externa. Donald Trump já alertou que a nova líder interina poderá enfrentar "consequências severas" caso não atenda às expectativas de Washington. Entre as exigências americanas estão:

  • A abertura do setor petrolífero venezuelano para empresas dos EUA.
  • A concessão de acesso ao setor de mineração.
  • A possível liberação de presos políticos como parte de um acordo de negociação.

Rodríguez, no entanto, manteve o discurso de resistência. Durante uma reunião de governo, onde também foram apresentados dados sobre produção agrícola, ela prestou homenagens a apoiadores do regime, reconhecendo "os mártires que deram a vida para defender a Venezuela". A dirigente classificou o momento atual como "um caminho doloroso" diante de uma "agressão inédita", mas garantiu que o chavismo segue mobilizado "pela paz e pela liberdade" de Maduro.

Vigilância internacional e denúncias de repressão

Apesar do discurso oficial, a transição de poder não ocorre sem turbulências. Relatos de organizações de imprensa indicam que, durante a cerimônia de posse dos parlamentares, ao menos 16 jornalistas foram detidos, sendo a maioria liberada horas depois. O episódio levanta preocupações sobre liberdade de imprensa e repressão em um momento de alta sensibilidade política.

O cenário que se desenha para a Venezuela é de extrema complexidade. De um lado, uma liderança interina que busca afirmar soberania e continuidade ideológica. De outro, uma pressão internacional concretizada na prisão de sua principal figura e em exigências econômicas e políticas. O caminho "doloroso" mencionado por Delcy Rodríguez parece ser apenas o início de um novo e tenso capítulo na história do país.