Casa onde Hitler nasceu vira delegacia na Áustria, gerando debate sobre neutralização do local
Casa de Hitler vira delegacia na Áustria, gerando debate

Casa onde Hitler nasceu se transforma em delegacia de polícia na Áustria

A transformação da casa onde Adolf Hitler nasceu em uma delegacia de polícia está gerando sentimentos contraditórios na cidade de Braunau am Inn, na Áustria, próxima à fronteira com a Alemanha. O governo austríaco implementou o projeto com o objetivo declarado de "neutralizar" o local histórico, que por décadas atraiu a atenção de extremistas de direita.

Lei de 2016 permitiu intervenção estatal no imóvel

Em 2016, o governo aprovou uma lei específica para assumir o controle do prédio, que estava deteriorado e era de propriedade privada. A medida legal permitiu que o Estado austríaco interviesse diretamente no destino do imóvel, localizado no centro da cidade, em uma rua estreita repleta de comércios.

Jornalistas da AFP visitaram o local recentemente e observaram uma equipe de operários realizando os retoques finais na fachada renovada. Em frente à casa, uma pedra memorial exibe a inscrição: "Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos nos alertam".

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Opiniões divididas entre moradores e especialistas

A assistente de escritório Sibylle Treiblmaier, de 53 anos, expressou à AFP sua visão ambivalente sobre o projeto: "É uma faca de dois gumes", afirmou ela, sugerindo que o imóvel poderia ter sido "melhor aproveitado" ou destinado a algo "diferente".

Jasmin Stadler, dona de loja de 34 anos e natural de Braunau, criticou especialmente o custo da reforma, que atingiu 20 milhões de euros (aproximadamente 122 milhões de reais na cotação atual). Ela defendeu que seria mais interessante colocar o local em um "contexto histórico", oferecendo informações educacionais sobre o imóvel.

Preocupações com o simbolismo policial

Ludwig Laher, membro do Comitê Mauthausen que representa vítimas do Holocausto, manifestou preocupação com a escolha: "Uma delegacia de polícia é problemática porque a polícia é obrigada, em todos os sistemas políticos, a proteger o que o Estado deseja". Ele mencionou que a proposta de transformar a casa em um local de encontro para discussões sobre promoção da paz "recebeu muito apoio".

Defensores veem neutralização como positiva

Por outro lado, Wolfgang Leithner, engenheiro eletricista de 57 anos, expressou apoio ao projeto, esperando que ele "traga um pouco de tranquilidade" para a região e impeça que o local se torne ponto de peregrinação para extremistas. "Faz sentido usar o prédio e cedê-lo à polícia e às autoridades públicas", afirmou.

O Ministério do Interior austríaco informou que a delegacia deverá entrar em funcionamento "no segundo trimestre de 2026". Anteriormente, o ministério alugava o imóvel, que abrigou um centro para pessoas com deficiência antes de ser abandonado.

Contexto histórico do debate austríaco

O debate sobre como lidar com a história do Holocausto não é novo na Áustria, país que foi anexado pela Alemanha nazista em 1938 e historicamente enfrentou críticas por não reconhecer plenamente sua responsabilidade no genocídio. Durante o regime nazista, aproximadamente 65.000 judeus austríacos foram assassinados e cerca de 130.000 foram forçados ao exílio.

Recentemente, em 2023, duas ruas em Braunau am Inn que homenageavam nazistas foram renomeadas após anos de pressão de grupos ativistas. O Partido da Liberdade (FPÖ), de extrema direita e fundado por ex-nazistas, lidera atualmente as pesquisas de opinião no país, tendo obtido maioria nas eleições legislativas de 2024 sem conseguir formar governo.

A AFP tentou contato com o gabinete do prefeito conservador de Braunau am Inn, mas não obteve resposta sobre o polêmico projeto de transformação da casa natal de Hitler.

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