Brasileiras na Rússia relatam uso de VPN para driblar bloqueio do WhatsApp
Brasileiras na Rússia usam VPN após bloqueio do WhatsApp

Brasileiras na Rússia enfrentam bloqueio do WhatsApp com uso de VPN

A Rússia anunciou o bloqueio total do WhatsApp na última quinta-feira (12) e, no dia anterior, informou que começaria a restringir gradualmente o Telegram. O governo russo alega que essas plataformas são usadas para propagar conteúdos criminosos, enquanto as empresas classificam a ação como um retrocesso contra a liberdade de expressão. Na prática, essa mudança não teve grande impacto nos brasileiros que moram no país, já acostumados a usar uma VPN para burlar essas proibições.

VPN se torna essencial para comunicação

Paola Loureiro, de 25 anos, nascida em Minas Gerais e mestranda em linguística em Moscou há dois anos e meio, explica que o uso de VPN é algo comum há muito tempo. "Pessoal já faz isso há muito tempo. É algo essencial aqui, não tem como você viver sem VPN", afirma ela, que preferiu não informar o nome da faculdade por medo de represália. A VPN, sigla para rede privada virtual, cria um túnel criptografado na internet, mascarando a localização do usuário e permitindo o acesso a serviços bloqueados pelo governo local.

Em 2022, após o início da guerra com a Ucrânia, a Rússia anunciou o bloqueio do Instagram e do Facebook, classificando a Meta, dona dos aplicativos, como uma organização extremista. Paola conta que, desde então, seus conhecidos brasileiros e russos já usam VPN, e ela começou a usar assim que chegou ao país. Inicialmente, ela usava uma VPN gratuita, mas passou a pagar pelo produto em setembro de 2025, após a Rússia restringir ligações de voz e vídeo no WhatsApp e no Telegram. "Eu usava esses recursos para falar com a minha família no Brasil. Então, fui atrás de uma VPN melhor. Hoje pago cerca de R$ 10 por mês e falo com eles diariamente pelo WhatsApp, por mensagem ou ligação", relata.

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Adaptação e desafios do uso de VPN

Paola explica que o funcionamento da VPN é simples: basta baixar o aplicativo e mantê-lo ativado. No entanto, ela destaca que a maior chateação é a burocracia. "Vira e mexe o governo bloqueia alguma VPN, aí temos que baixar outra. Não é difícil, porque circulam links no Telegram, mas é chato", afirma. Além disso, manter uma VPN ligada gasta mais bateria e, às vezes, mesmo as versões pagas apresentam instabilidade.

Clarissa Ribeiro, de 25 anos, pernambucana que se mudou para a Rússia há cerca de dois anos para estudar veterinária em Moscou, também usa VPN desde que chegou ao país. Tão acostumada ao recurso, ela nem tinha percebido o bloqueio total anunciado nesta semana. Para testar, Clarissa saiu da VPN e mandou uma mensagem que não chegou; ao reativar o recurso, a mensagem chegou instantaneamente. "Então, realmente o WhatsApp parou de funcionar sem a VPN", constatou.

Promoção do aplicativo Max e pressões universitárias

Ao mesmo tempo em que restringe aplicativos não ligados ao governo, a Rússia promove o uso do Max, aplicativo inspirado no chinês WeChat, que permite trocar mensagens e utilizar serviços do governo. Diferente do WhatsApp, ele não tem criptografia, o que permitiria que terceiros acessassem as mensagens, segundo o jornal Financial Times. A Rússia nega as acusações.

O receio de ter a privacidade violada faz com que Paola e seus amigos evitem o aplicativo. Segundo ela, o Max é mais comum entre pessoas mais velhas, que não conhecem a VPN. Além disso, tanto Paola quanto Clarissa dizem já terem sido pressionadas pelas universidades para baixar o Max. Clarissa conta que, em dezembro de 2025, a universidade avisou que estudantes não poderiam fazer as provas de janeiro se não instalassem o Max. "A conexão de todos os estudantes [ao Max] é estritamente obrigatória. Caso contrário, Khayam Zakirovich [vice-reitor da faculdade de medicina veterinária] não concederá a vocês a autorização para fazer os exames", diz a mensagem.

Apesar da ameaça, ela afirma que a maioria dos alunos ignorou a orientação e conseguiu fazer as provas normalmente. "Eu não dei a mínima, fiz os exames, ninguém chamou minha atenção", conta. Em relação ao Telegram, Paola e Clarissa disseram que continua sendo possível enviar e receber mensagens sem a VPN, mas que nesta semana ficou mais lento. Já o Instagram e o Facebook seguem inacessíveis sem a VPN.

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