UE aprova acordo Mercosul após 25 anos: entenda os próximos passos
Acordo UE-Mercosul aprovado, mas ainda precisa de aval

Após um quarto de século de negociações, a União Europeia deu um passo crucial para a implementação do acordo comercial com o Mercosul. Nesta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, os embaixadores e diplomatas do bloco europeu aprovaram provisoriamente o texto do tratado, conforme confirmado pelas agências de notícias AFP e Reuters.

Essa aprovação, no entanto, não significa que o acordo entra em vigor imediatamente. O processo ainda enfrenta uma série de trâmites internos e uma batalha política significativa, especialmente no Parlamento Europeu. O pacto promete criar a maior zona de livre comércio do planeta, abrangendo um mercado de mais de 700 milhões de consumidores e eliminando tarifas de mais de 90% do comércio bilateral entre os blocos.

O caminho até a assinatura

A confirmação formal da decisão tomada pelos embaixadores está prevista para as 17h no horário de Bruxelas (13h em Brasília). Com isso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estará autorizada a assinar oficialmente o acordo. A expectativa é que a cerimônia de assinatura ocorra já na próxima segunda-feira, 12 de janeiro, em Assunção, capital do Paraguai.

Vale destacar que o Paraguai atualmente ocupa a presidência rotativa do Mercosul, tendo sucedido o Brasil em dezembro. A manobra para viabilizar a aprovação provisória foi conduzida pelo Chipre, que detém a presidência rotativa da UE, mas foi considerada controversa pela delegação francesa. A aplicação provisória ainda depende da ratificação de pelo menos um país membro do Mercosul.

O grande obstáculo: o Parlamento Europeu

O aval dado pelos embaixadores é apenas uma etapa. Para que o acordo entre em vigor de forma integral e definitiva, ele precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu. Este é considerado o maior desafio pela frente, e o processo pode levar várias semanas.

A votação no parlamento europeu está cercada de incertezas. Cerca de 150 eurodeputados, de um total de 720, já ameaçaram recorrer à Justiça para tentar barrar o acordo. A oposição é liderada pela França, que teme impactos negativos em seu setor agrícola. A ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, já afirmou que a "batalha não acabou" e que o país lutará contra o texto no parlamento.

Além da resistência francesa, grupos ambientalistas europeus, como os Amigos da Terra, farão pressão contra a ratificação, argumentando que o pacto tem potencial "devastador para o clima". Apesar das controvérsias, o alemão Bernd Lange, presidente da comissão de comércio do Parlamento Europeu, expressou confiança na aprovação final, prevendo uma votação crucial entre abril e maio.

Contexto e interesses em jogo

As negociações entre a Comissão Europeia e os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) começaram em 1999. Para países como Alemanha e Espanha, o acordo é visto como vital para a estratégia europeia de abrir novos mercados, reduzir a dependência comercial da China e compensar perdas decorrentes de políticas protecionistas de outros grandes atores globais, como os Estados Unidos.

O tratado também é considerado fundamental para garantir o acesso da indústria europeia a minerais críticos. Do lado do Mercosul, a expectativa é de maior acesso para commodities agrícolas e um impulso para as economias da região. O desfecho dessa longa novela comercial, porém, ainda aguarda o capítulo final que será escrito em Estrasburgo, sede do Parlamento Europeu.