Cinco anos se passaram desde que o mundo assistiu, em choque, a uma multidão de apoiadores de Donald Trump invadir o Capitólio dos Estados Unidos. O episódio de 6 de janeiro de 2021, que deixou mortos, centenas de feridos e um trauma profundo nas instituições democráticas, parecia marcar o fim político do então presidente. No entanto, o desfecho foi radicalmente diferente.
O ataque que abalou a democracia americana
Naquele dia fatídico, milhares de manifestantes, incitados pela falsa narrativa de uma eleição roubada, forçaram a entrada no prédio do Congresso. O objetivo era interromper a sessão conjunta que certificaria a vitória de Joe Biden. O caos se instalou: instalações foram depredadas, policiais foram atacados com objetos, sprays químicos e violência direta. Parlamentares, assessores e funcionários tiveram que se esconder às pressas para garantir a própria segurança.
O saldo foi trágico. Cerca de 140 agentes policiais ficaram feridos. Nos meses seguintes, quatro oficiais morreram por suicídio, de acordo com autoridades americanas. O episódio representou uma das maiores crises da democracia americana em décadas, expondo fraturas políticas e sociais profundas.
A reabilitação política e o revisionismo histórico
Apesar de sofrer um segundo impeachment, Donald Trump foi absolvido pelo Senado. Sua volta triunfal ao poder, após vencer as eleições de 2024, transformou completamente a narrativa e as consequências do 6 de janeiro. O ponto de inflexão ocorreu logo no primeiro dia de seu segundo mandato, em 2025.
Trump concedeu perdão presidencial a aproximadamente 1.500 pessoas investigadas ou condenadas por envolvimento direto na invasão. Com um só ato, ele encerrou o maior conjunto de processos criminais do Departamento de Justiça sobre um único episódio político. Entre os beneficiados estavam réus condenados por agredir policiais e líderes de grupos extremistas que planejaram o ataque.
Paralelamente, uma limpeza interna ocorreu no Departamento de Justiça. Procuradores e agentes federais que atuaram nos casos do Capitólio foram demitidos, rebaixados ou se tornaram alvos de investigações. Aliados de Trump, incluindo advogados que defenderam réus da invasão, assumiram cargos estratégicos. A instituição, antes um símbolo de independência técnica, passou a ser vista como vulnerável à pressão política.
O papel do Congresso e do Judiciário
O revisionismo histórico também avançou no Legislativo. Parlamentares republicanos barraram a instalação de uma placa em homenagem aos policiais que defenderam o Capitólio, mesmo com a aprovação prévia por lei. Na narrativa pública, Trump e seus aliados passaram a descrever os invasores como "patriotas" e vítimas de perseguição, chegando a classificar a data como um "dia de amor".
O sistema judicial consolidou essa mudança. Após a vitória de Trump em 2024, os principais processos contra ele foram abandonados. A Suprema Corte teve um papel decisivo ao decidir que o ex-presidente não poderia ser impedido de concorrer novamente e ao ampliar a imunidade penal para atos oficiais do chefe de Estado, efetivamente limitando os instrumentos de responsabilização criminal do Executivo.
Um novo limite para a democracia
Para investigadores e agentes que atuaram nos casos, trata-se de um esforço deliberado de reescrever a história. Dan Hodges, policial gravemente ferido durante o ataque, resumiu: "O 6 de janeiro foi o crime mais documentado da história americana, mas mesmo assim há uma tentativa sistemática de negar o que todos viram".
Cinco anos depois, o Capitólio está fisicamente restaurado. As marcas do vandalismo foram apagadas. No entanto, as marcas na democracia americana permanecem. O que mudou, de forma profunda, foi o esticar dos limites institucionais. As consequências políticas do ataque foram redefinidas pelo retorno do seu principal instigador ao cargo mais poderoso do país, levantando questões duráveis sobre responsabilidade, memória e a resistência das democracias frente a ataques internos.