Crise da palavra na política e tribunais brasileiros
Crise da palavra na política e tribunais

A passagem do Dia da Língua Portuguesa, celebrado hoje, não desperta grandes reflexões, mas serve para lamentar o progressivo mau uso da palavra nas escarpas políticas e nos tribunais do Brasil. Se o bem falar está quase falido mundo afora, não é diferente entre nós, desmentindo o poeta Virgílio Ferreira, para quem a palavra faz parte do idioma "um bem precioso que une os povos que o mar separa". Na prática, falada ou escrita, a palavra vem separando e dividindo, denunciando e ofendendo, gerando crises e afetando a mínima harmonia entre os poderes constituídos. Um exemplo claro é o bate-boca rasteiro entre o ministro Gilmar Mendes e o ex-governador mineiro Romeu Zema, que divergem até sobre o modo de falar. A palavra também padece no baixo calão que desce das tribunas para agredir autoridades e expor as famílias. Os debates atuais, sobretudo nas redes sociais, nivelam-se aos piores conflitos de fins de semana entre torcidas de futebol, só faltando lançar pedras e derramar sangue.

STF e o exibicionismo midiático

A decisão do Supremo Tribunal Federal de transmitir suas sessões pela TV foi aplaudida por vários setores, especialmente entre agentes jurídicos, com a intenção de se aproximar do público e se fazer entender. No entanto, veio o primeiro descuido: a corte não evitou que seus ministros continuassem abusando de linguagem hermética e longuíssimos pareceres afetados no juridiquês. Pior foi a transformação do STF em palanque de protagonismo, não raramente ocupado por exibicionismo consentido apenas em palco de artistas em busca de aplausos. Salvo exceções, há ministros que abandonaram o dever de falar nos autos para apenas falar alto diante das câmeras. A discrição dos antigos magistrados, que podiam andar nas ruas e frequentar padarias sem serem reconhecidos, já virou coisa do passado. Não se sabe se o prometido código de posturas do ministro Fachin será suficiente para conter o estrelismo indesejável no primeiro entre os tribunais.

Crise global da palavra

O mundo também enfrenta a crise da palavra, especialmente com a guerra entre Estados Unidos e Irã, que é uma tragédia das palavras mal ditas dos litigantes. Seus efeitos espirram sobre todos. As coisas têm complicado mais do que deveriam, certamente porque o presidente Donald Trump tornou-se o mais fantástico esbanjador de palavras, capaz de usá-las e descartá-las sem medir consequências. Em um sopro de ameaças ou pronunciamento descuidado, lança graves ameaças e as desautoriza pouco depois. Os inimigos já constataram isso e dão corda, esticando o assunto. Líderes mais sábios, como Xi Jinping, que carrega no dizer e no silêncio a milenar sabedoria chinesa, falam apenas o indispensável, raras entrevistas, e, de longe, atentos, esperam para ver como ganhar a guerra sem se arranhar. A história é antiga: presidente que fala muito dá bom dia a cavalo.

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