Criminosos de outros estados buscam refúgio no RJ e crescem 63% na população carcerária
Criminosos de outros estados buscam refúgio no RJ

Investigações revelam que criminosos de outros estados estão migrando para o Rio de Janeiro em busca de refúgio e para expandir o domínio territorial de facções. Um levantamento da Secretaria de Polícia Penal mostra que o número de presos no estado com mandados expedidos por outras unidades da federação cresceu 63% entre 2022 e 2025, evidenciando um movimento crescente de foragidos que encontram abrigo em áreas dominadas pelo crime organizado.

Expansão territorial e impacto na vida dos moradores

O avanço das facções tem transformado bairros inteiros, que antes estavam sob controle do Estado, em zonas de influência direta de traficantes e milicianos. Na Zona Norte do Rio, um proprietário de imóvel relatou que seu prédio foi tomado pelo tráfico após o fortalecimento de criminosos em uma comunidade próxima, a partir de 2021. Segundo ele, traficantes armados circulavam diariamente na região e chegaram a montar uma barricada na porta do edifício. A partir desse ponto, a área passou a ser dominada pelos criminosos, que abordavam moradores e transeuntes, verificando celulares em busca de mensagens suspeitas.

Com o tempo, os traficantes assumiram o controle do imóvel, intimidaram os locatários e passaram a receber os aluguéis. O proprietário perdeu a renda e o acesso ao bem, além de enfrentar cobranças judiciais por dívidas de IPTU. Ele questiona: "O Estado não foi capaz de impedir o avanço do tráfico nessa localidade e hoje me cobra impostos por um imóvel explorado pelo crime?". A Prefeitura do Rio informou que o processo se refere a débitos entre 2016 e 2019 e que não há pedido de anistia administrativa.

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Crime sem fronteiras

Para a polícia, a expansão territorial das facções está diretamente ligada ao fluxo de criminosos de outros estados. O delegado Fabrício Oliveira, coordenador da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), afirma que, nos últimos anos, com restrições nas operações policiais, o crime organizado se fortaleceu dentro das favelas e passou a dominar bairros inteiros, como Ipase, Brás de Pina, Penha e Cordovil. O Rio se tornou uma base para organizações como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, que recebem criminosos de outros estados em busca de proteção.

O delegado Moysés Santana, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), destaca que esses criminosos trazem conexões com fronteiras e países vizinhos, ampliando o alcance das facções. Ao mesmo tempo, o Comando Vermelho exporta seu modus operandi de domínio territorial para outras regiões.

Números do sistema penitenciário

Os dados da Secretaria de Polícia Penal mostram um crescimento acentuado: em 2022, havia 677 presos com mandados de outros estados; em 2023, 848; em 2024, 914; e em 2025, 1.105, um aumento acumulado de 63%. Nos dois primeiros meses de 2026, foram 861 prisões desse tipo, número cinco vezes maior que no mesmo período de 2025 (144). Os detentos de fora já representam cerca de 10% da população carcerária fluminense. Minas Gerais, Bahia e São Paulo lideram a origem desses presos.

Liderança e estratégia

Muitos criminosos chegam ao Rio para ocupar posições estratégicas nas facções. É o caso de Zeus, de Rondônia, que após cumprir pena com Fernandinho Beira-Mar, assumiu o controle da Muzema, em Jacarepaguá. Outro exemplo é Rafael Carlos da Silva Ferreira, o Parazão, chefe do TCP em Minas Gerais, que comanda o tráfico no Morro da Mineira, no Catumbi. Na Penha e no Alemão, há chefes do Comando Vermelho do Amazonas, Pará e Paraíba. Na Rocinha, estão escondidos chefes do CV do Ceará, enquanto a Maré abriga criminosos do TCP do Espírito Santo. O Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, serve de abrigo para traficantes do Pará. No Vidigal, a polícia esteve perto de prender Ednaldo Pereira Souza, o Dada, da Bahia, mas ele fugiu por uma passagem secreta.

A promotora Letícia Emile, do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, afirma que o Rio se tornou um polo de articulação do crime organizado. "O Rio de Janeiro hoje funciona como um berço para a criminalidade organizada. Criminosos migram para aprender táticas e formas de atuação", disse. Segundo ela, as facções ampliaram a atuação para além do tráfico, estabelecendo parcerias com outros tipos de crime.

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