Uma nova pesquisa Datafolha revela que 70% da população brasileira percebe a relação entre o governo Lula (PT) e o Congresso Nacional como mais conflituosa do que colaborativa. Apenas 20% dos entrevistados enxergam mais cooperação do que embate, enquanto 2% afirmam não observar nem um nem outro, e 8% não souberam responder. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios de todo o país, na terça-feira (12) e quarta-feira (13), e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00290/2026. A maioria das entrevistas foi realizada antes da revelação de conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) solicita dinheiro a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Embates entre Executivo e Legislativo
A opinião do eleitorado reflete a série de confrontos entre o Executivo e o Legislativo ocorridos no atual mandato de Lula. O ápice foi no final de abril, com a histórica rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Desde 2023, o Congresso impôs diversos reveses ao governo. Naquele ano, por exemplo, retirou competências das pastas de Meio Ambiente e Povos Indígenas. Em 2024, os parlamentares derrubaram vetos às chamadas saidinhas de presos e ao "PL do Veneno", sobre agrotóxicos. Em 2025, impediram mudanças nas alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), na primeira reversão de um decreto presidencial desde o governo Collor, e também barraram uma medida provisória que aumentava impostos.
O governo e o PT reagiram com críticas nas redes sociais sob o mote "Congresso Inimigo do Povo". Neste ano, além de barrar Messias, o Senado derrubou o veto de Lula à redução de penas para acusados por atos golpistas. Por outro lado, Lula conseguiu aprovar no Legislativo a reforma tributária e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, além de fechar acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para votar a proposta que acaba com a escala de trabalho 6x1, considerada estratégica para a campanha do petista.
Percepção sobre o confronto
Entre os que acreditam haver mais confronto do que colaboração entre governo e Congresso, 89% consideram isso negativo para o Brasil, enquanto 10% avaliam como positivo. No grupo minoritário que vê colaboração, 58% afirmam que a relação Lula-Congresso é positiva, e 38% a descrevem como negativa para o país. Atualmente, Lula mantém proximidade com Motta e busca superar o desgaste com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após o veto à indicação de Messias. O objetivo do presidente é fazer avançar propostas como o fim da escala 6x1, que deve ser votada ainda neste mês na Câmara. No Senado, a ideia é aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, atualmente parada.
Avaliação do Congresso
A pesquisa também mostra o Legislativo em baixa perante a população. O desempenho de deputados federais e senadores é considerado ruim ou péssimo por 37% dos entrevistados, e bom ou ótimo por 15%. A maior parcela, 43%, classifica o Congresso como regular. A situação é pior do que a medida em dezembro do ano passado, mas estável em relação ao último levantamento, no início de março. Naquela ocasião, 39% consideravam o Legislativo ruim ou péssimo, 14% o viam como ótimo ou bom e 42% o classificavam como regular.
A insatisfação com a Câmara e o Senado não varia significativamente entre bolsonaristas e petistas. Entre os que se identificam como bolsonaristas, 15% consideram o trabalho bom ou ótimo, 43% regular e 37% ruim ou péssimo. Entre os petistas, os percentuais são 17%, 40% e 37%, respectivamente. Brasileiros de renda intermediária e mais instruídos estão mais descontentes com o Congresso em comparação aos mais pobres e menos instruídos. Em diferentes estratos sociais, a avaliação positiva do Congresso chega a 21% entre empresários e pessoas com ensino fundamental completo. A avaliação negativa varia: 47% entre funcionários públicos, 43% entre quem tem mais de 60 anos, 34% entre mulheres e 31% entre evangélicos.
Crise do Banco Master
O descontentamento com deputados e senadores ganhou novos contornos com o agravamento da crise do Banco Master, cujos desdobramentos atingiram recentemente dois senadores: o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro (RJ), e o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI). Flávio admitiu ter mantido contato com Daniel Vorcaro, dono do banco, ao longo de 2025 para tratar do financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro (PL), enquanto Ciro é suspeito de ter recebido R$ 300 mil mensais do Master para defender interesses do banco, o que ele nega. Apesar da dimensão do escândalo, Alcolumbre enterrou a proposta de criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Master no mês passado, em acordo com a oposição em troca de pautar a derrubada do veto de Lula à lei que reduz penas de condenados por golpismo. A instalação da comissão ainda é defendida por petistas e bolsonaristas nas redes sociais.
No fim de abril, o duplo revés de Lula com Messias e a dosimetria levou a esquerda a ressuscitar o slogan "Congresso inimigo do povo". O Datafolha também apontou que, aos três anos e quatro meses de mandato, 39% avaliam que o presidente Lula está fazendo um trabalho ruim ou péssimo, enquanto 30% consideram a gestão boa ou ótima, e 29% a classificam como regular.
Lula afirma a aliados que vai reenviar ao Senado a indicação de Messias para a vaga no STF. Segundo pessoas próximas, o petista quer reafirmar que a escolha é uma prerrogativa do presidente da República. Em conversas, ele também demonstra consciência de que o Senado não impôs uma derrota pessoal a Messias, mas a seu governo.



