Ministro do TCU questiona liquidação do Banco Master e gera reação do BC
Ministro do TCU questiona liquidação do Banco Master

Um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) com origem política no Centrão adotou um tom crítico em relação ao processo de liquidação do Banco Master, determinando uma inspeção no Banco Central. A medida, porém, foi contestada pela autoridade monetária, que recorreu da decisão, gerando um novo capítulo no caso.

Quem é o ministro por trás da decisão

Jhonatan de Jesus não possui formação na área econômica. Sua trajetória profissional é a medicina, e ele atuou como deputado federal por Roraima entre 2011 e 2023. Em março de 2023, assumiu o cargo de ministro do TCU após uma indicação aprovada pelo Congresso Nacional.

A ideia de sua nomeação partiu da liderança do Republicanos na Câmara dos Deputados, recebendo apoio decisivo do então presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), e de outras agremiações do Centrão e da base governista. Durante o processo, o então deputado defendia uma maior aproximação entre o tribunal e o parlamento.

O caminho para o TCU teve um detalhe familiar: sua indicação foi aprovada na Câmara em fevereiro de 2023, com 239 votos. No Senado, o relator do processo foi seu próprio pai, o senador e líder do Republicanos, Mecias de Jesus (RR). A votação no Senado resultou em 72 votos favoráveis.

O questionamento à liquidação do Banco Master

Na última segunda-feira (5 de janeiro de 2026), o ministro Jhonatan de Jesus emitiu um despacho com duras críticas à liquidação do Banco Master, realizada pelo Banco Central em novembro de 2025. Para ele, a justificativa apresentada pela autoridade monetária seria uma “exposição sintética de cronologia sem provas documentais”.

O ministro determinou que a área técnica do TCU realize uma inspeção no Banco Central. O objetivo é obter uma reconstrução documental detalhada do passado recente do Banco Master. Entre os pontos a serem investigados, estão:

  • Como o BC permitiu o crescimento exorbitante da instituição a partir de 2019, período que inclui a gestão do ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto.
  • A avaliação do perfil dos investidores institucionais do Master.
  • Se os ativos remanescentes do banco são passíveis de degradação, o que, em tese, poderia reverter a decisão de liquidação.

A reação imediata do Banco Central

A decisão do ministro gerou uma resposta rápida. Na manhã de terça-feira (6 de janeiro), o Banco Central apresentou um recurso contra a determinação de inspeção. A defesa do BC argumenta que, de acordo com o regimento interno do TCU, apenas decisões colegiadas (tomadas por um grupo de ministros, como uma turma) podem ordenar inspeções em órgãos federais.

Dessa forma, o Banco Central cobra que uma decisão formal seja deferida pela Primeira Turma do TCU para que a inspeção possa prosseguir. O recurso joga a questão para uma instância superior dentro do tribunal, onde o embate entre a visão do ministro indicado pelo Centrão e a autonomia do Banco Central será definido.

O caso coloca em evidência a atuação de um ministro com perfil político em um tribunal de controle, a reação de uma autarquia federal a essa interferência e os desdobramentos de um dos maiores processos de intervenção bancária dos últimos anos.