O pioneiro comunista de Santa Catarina que desafiou a Câmara em 1934
Há exatos 92 anos, Santa Catarina escrevia um capítulo singular na história política brasileira ao ser berço do primeiro deputado federal a subir à tribuna da Câmara e declarar-se abertamente comunista. Este gesto histórico do estivador Alvaro Soares Ventura em 6 de setembro de 1934 contrasta profundamente com a conjuntura política atual do estado, hoje apontado como bastião da direita brasileira.
Um operário na tribuna da burguesia
Quando Alvaro Ventura assumiu a palavra na Câmara dos Deputados, o Partido Comunista do Brasil (PCB) encontrava-se na ilegalidade. Sua declaração comunista foi ainda mais surpreendente porque ele não pertencia formalmente aos quadros partidários naquele momento. "Senhores deputados burgueses. Senhores deputados feudais" - assim começou seu discurso histórico, proferido em mangas de camisa e com sapatos emprestados.
O jornalista Nelson Rolim de Moura, que entrevistou Ventura em 1979, descreve o ex-deputado como "baixo, do tipo retaco forte, com uma mão imensa, dedos muito grossos, de quem tinha trabalhado muito pesado". Esta imagem do trabalhador braçal contrastava fortemente com o perfil intelectual que predominava na direção do PCB na época.
Trajetória de lutas e prisões
Nascido em setembro de 1893 em Coqueiros, então distrito de São José na Grande Florianópolis, Ventura era filho de um marítimo anarquista que partiu para Cuba e nunca mais retornou. Sua mãe, Jesuína Rosa da Conceição, era descrita como "forte e braba" nas memórias do próprio Ventura.
Antes de se tornar estivador, profissão que exerceria por décadas, Ventura trabalhou como:
- Tropeiro
- Carpinteiro e marceneiro
- Latoeiro e pedreiro
- Alfaiate e padeiro
- Encanador
Sua primeira prisão ocorreu por volta de 1910, quando animava uma manifestação pela jornada de trabalho de oito horas em Florianópolis. Esta seria apenas a primeira de muitas detenções ao longo de seus 96 anos de vida.
O caminho até a Câmara
Ventura chegou ao Congresso através da chamada bancada classista, instituída pelo regime de Getúlio Vargas para representar trabalhadores na Constituinte de 1933. Ele foi eleito suplente de Antônio Penaforte, também estivador, pelo Partido Operário Socialista de São Francisco do Sul.
A oportunidade de assumir o mandato surgiu tragicamente quando Penaforte foi assassinado com cinco tiros no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1934. Ventura embarcou para a capital federal no dia 30 e, uma semana depois, fazia história com seu discurso comunista.
Controvérsias e contradições
Apesar de se declarar comunista, Ventura mantinha posições independentes em relação ao PCB. Ele criticava publicamente a direção partidária, que considerava dominada por "pequeno-burgueses", e tinha divergências estratégicas importantes:
- Apoiou a Revolução de 1930, enquanto o PCB a via como conflito entre oligarquias
- Defendia o trabalho com sindicatos existentes, contra a política do partido de criar "sindicatos vermelhos"
- Era católico praticante, mantendo esta fé mesmo após declarar-se comunista
Esta postura independente quase o tornou inimigo da ortodoxia comunista, mas sua condição de operário e dirigente sindical acabou por salvá-lo durante o processo de "proletarização" imposto ao PCB pela Internacional Comunista.
Vida após o mandato
Após o fracassado levante comunista de 1935, do qual se opôs por considerar que o país não tinha condições para uma revolução, Ventura foi preso novamente. No presídio da Ilha Grande, conviveu com o escritor Graciliano Ramos, que o descreveu em Memórias do Cárcere como alguém com "tanta serenidade no jogo" durante partidas de pôquer.
Libertado em 1938, chegou a ocupar a secretaria-geral do PCB durante a clandestinidade, transmitindo o cargo para Luiz Carlos Prestes em 1945. Neste mesmo ano, concorreu a deputado federal constituinte pelo Distrito Federal, mas não foi eleito.
Legado em tempos de polarização
A história de Alvaro Ventura ganha relevância especial no contexto atual de Santa Catarina, estado que atraiu dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro como domicílio eleitoral: o vereador de Camboriú Jair Renan Bolsonaro e o candidato a deputado federal Carlos Bolsonaro.
Em entrevista concedida em 1979 em sua humilde casa de madeira na Praia da Armação, região sul da ilha de Santa Catarina, Ventura já com 86 anos refletia sobre seu mandato: "Eu era comunista e estava ao lado do trabalhador, mas procurei dentro da Câmara unir todos em torno de um espírito nacionalista, buscando uma unidade nacional".
Nove décadas após seu gesto histórico, a figura de Alvaro Ventura permanece como testemunho das complexidades e contradições que marcaram a trajetória do movimento operário e da esquerda brasileira, especialmente em um estado cuja identidade política contemporânea parece ter seguido caminho oposto ao deste pioneiro comunista catarinense.