Ucrânia busca adesão à UE até 2027 enquanto EUA condicionam segurança à cessão de Donbas
Ucrânia quer UE até 2027; EUA ligam segurança à cessão de Donbas

Ucrânia estabelece meta ambiciosa para adesão à União Europeia até 2027

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, declarou nesta terça-feira (27) que o país almeja se tornar membro da União Europeia até o ano de 2027. Em um pronunciamento enfático, Zelensky destacou que a integração ucraniana ao bloco europeu representa uma garantia fundamental de segurança não apenas para a nação, mas para todo o continente.

"A adesão da Ucrânia à União Europeia é uma das principais garantias de segurança não só para nós, mas para toda a Europa", afirmou o líder ucraniano. Ele ressaltou ainda que "a força coletiva da Europa só é possível graças às contribuições da Ucrânia nas áreas da segurança, tecnologia e economia".

Zelensky foi categórico ao estabelecer um prazo concreto para esse objetivo estratégico, declarando: "Por isso, estamos falando de uma data concreta – 2027 – e contamos com o apoio dos parceiros à nossa posição". Esta declaração ocorre em um momento crucial das negociações pelo fim do conflito com a Rússia.

Condição dos EUA para garantias de segurança pós-guerra gera tensão

Enquanto a Ucrânia avança em sua agenda europeia, revelações do jornal Financial Times expõem divergências significativas nas negociações de paz. Segundo o periódico britânico, o governo do presidente norte-americano Donald Trump sinalizou a Kiev que as garantias de segurança que os Estados Unidos proveriam no período pós-guerra estão condicionadas à aceitação ucraniana de um acordo que cederia a soberania da região de Donbas à Rússia.

A informação, baseada em oito fontes familiarizadas com as negociações que não foram identificadas, representa uma posição que contraria diretamente a vontade expressa repetidamente por Zelensky de preservar a integridade territorial ucraniana em qualquer acordo de paz.

Detalhes das negociações e posições divergentes

O Financial Times revelou ainda que Washington indicou a possibilidade de oferecer mais armamentos à Ucrânia para fortalecer seu Exército após o conflito, desde que Zelensky aceitasse retirar suas forças das partes de Donbas – composta pelas regiões de Donetsk e Luhansk – que ainda permanecem sob controle ucraniano.

Esta condição norte-americana contrasta com declarações recentes de Zelensky, que afirmou no domingo que um documento com as garantias de segurança dos EUA estava "100% pronto" e que Kiev aguardava apenas a definição de data e local para a assinatura. Os termos desse acordo teriam sido finalizados durante um encontro entre os líderes ucraniano e norte-americano nas margens do Fórum Econômico Mundial em Davos na semana anterior.

Reações e cenário de incerteza

Diante das revelações, um oficial ucraniano de alta patente disse ao Financial Times que a Ucrânia está cada vez mais incerta sobre o comprometimento de Washington com as garantias de segurança, alegando que os EUA estariam "recuando toda vez que as garantias de segurança podem ser assinadas".

A posição ucraniana é clara: Kiev deseja que as garantias de segurança sejam assinadas antes de considerar qualquer cessão territorial. No entanto, segundo o jornal britânico, os Estados Unidos acreditam que a Ucrânia precisa abrir mão de Donbas para que a guerra tenha um fim efetivo, e não estariam pressionando o presidente russo Vladimir Putin a abandonar essa exigência fundamental.

Anna Kelly, vice-secretária de imprensa da Casa Branca, negou as alegações ao afirmar: "Isso é totalmente falso. O único papel dos EUA no processo de paz é reunir os dois lados para fechar um acordo". Uma fonte familiarizada com a posição norte-americana acrescentou que Washington "não está tentando forçar quaisquer concessões territoriais à Ucrânia", explicando que as garantias de segurança dependem de ambas as partes concordarem com um acordo de paz.

Contexto das negociações trilaterais

As revelações ocorrem após a realização das primeiras reuniões trilaterais entre Estados Unidos, Ucrânia e Rússia para discutir o fim da guerra. Os encontros, realizados durante o final de semana em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, marcaram um novo capítulo nas negociações após um 2025 de discussões consideradas ineficazes.

As duas reuniões, no entanto, terminaram sem um acordo concreto entre as partes para finalizar o conflito. Zelensky classificou as conversas como "construtivas", termo também utilizado pelo governo dos Emirados Árabes Unidos. A Rússia, por sua vez, afirmou que o encontro representou "um começo construtivo" e que as negociações continuariam durante a semana.

Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, reafirmou na segunda-feira o compromisso de Trump com a paz na Ucrânia, classificando as reuniões nos Emirados Árabes como "históricas". Esta declaração ocorre em um contexto onde o presidente norte-americano havia prometido anteriormente encerrar o conflito em 24 horas caso fosse reeleito à Casa Branca.

Posição russa e impasse territorial

O Kremlin reafirmou na segunda-feira que a questão territorial continua sendo fundamental para qualquer acordo que ponha fim aos combates na Ucrânia. Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, reiterou que a paz no conflito depende da "fórmula Anchorage", referência ao que a Rússia afirma ter sido acordado entre Trump e Putin durante encontro no Alasca em agosto do ano passado, segundo fonte próxima ao Kremlin citada pela agência Reuters.

Esta posição mantém o impasse central das negociações: enquanto a Rússia insiste na cessão de Donbas como condição para a paz, a Ucrânia defende sua integridade territorial, criando um desafio complexo para as garantias de segurança prometidas pelos Estados Unidos no cenário pós-guerra.