Por que Putin insiste no Donbas? A região que trava a paz na Ucrânia
Donbas: o maior entrave para encerrar a guerra na Ucrânia

Donbas: o coração do impasse nas negociações de paz na Ucrânia

Enquanto delegações da Rússia, Ucrânia e Estados Unidos se preparam para uma reunião trilateral em Abu Dhabi, o foco das discussões recai sobre uma região crucial: o Donbas, no leste da Ucrânia. Esta área industrial, palco de intensos combates desde a invasão russa em 2022, tornou-se o maior obstáculo para um acordo de paz duradouro. Com cerca de 90% do território sob controle russo, o Donbas simboliza as complexidades geopolíticas e históricas que moldam o conflito.

As exigências de Putin e a resistência ucraniana

O presidente russo, Vladimir Putin, estabeleceu a concessão total do Donbas como condição inabalável para qualquer pacto de paz. Para a Ucrânia, liderada por Volodymyr Zelensky, ceder terras seria um golpe devastador e uma recompensa hipócrita ao agressor. Zelensky tem afirmado repetidamente que esta é uma linha vermelha, embora recentemente tenha adotado um tom mais flexível antes das negociações em Abu Dhabi. A região, composta pelas províncias de Luhansk e Donetsk, foi anexada pela Rússia em pleitos considerados ilegítimos internacionalmente, com a Ucrânia ainda mantendo controle sobre partes de Donetsk, como as cidades de Sloviansk e Kramatorsk.

Motivações por trás da cobiça russa

Por que a Rússia insiste tanto no Donbas? As razões são múltiplas e interligadas. Primeiramente, a região possui uma base industrial histórica, remanescente da era soviética, e é rica em recursos minerais, além de ter terras extremamente férteis para a agricultura. Economicamente, o controle do Donbas fortaleceria a posição da Rússia em setores estratégicos.

Em segundo lugar, o valor geopolítico é inegável. O porto de Mariupol, localizado na região, oferece acesso crucial ao Mar Negro e, consequentemente, ao Mediterrâneo, facilitando o escoamento de mercadorias e o posicionamento naval russo mais próximo do Ocidente.

No entanto, o fator talvez mais significativo é simbólico e ideológico. Putin justifica sua invasão com a narrativa de proteger os falantes de russo na Ucrânia, alegando discriminação e buscando reunificar o que chama de mundo russo. O Donbas, com sua população russófona e histórico na mitologia socialista soviética, é central para essa retórica, alimentando o sonho do Kremlin de reviver o fausto dos tempos czaristas e soviéticos.

Questões legais e a realidade no terreno

A Rússia baseia suas reivindicações em argumentos históricos, afirmando que a Ucrânia fez parte da Grande Rússia por séculos. Contudo, especialistas destacam que o Memorando de Budapeste de 1994, assinado por Rússia, Ucrânia, EUA e Reino Unido, garantiu a segurança ucraniana em troca do desarmamento nuclear, um acordo que Moscou violou em 2014 com a anexação da Crimeia.

Além disso, não há dados consistentes que apoiem a alegação russa de que a população do Donbas deseja integrar-se à Rússia. Como observa Steven Pifer, ex-embaixador americano em Kiev, muitos ucranianos, incluindo o próprio Zelensky, falam russo, mas isso não traduz apoio à anexação.

Opções para a Ucrânia e o futuro das negociações

A posição oficial ucraniana é firme: não cederá o Donbas, uma postura respaldada pela maioria da população. No entanto, a realidade militar, com a Rússia controlando grande parte da região, força Kiev a considerar alternativas. Zelensky tem proposto um cessar-fogo e o congelamento das linhas de frente, o que, na prática, manteria o controle russo sobre as áreas ocupadas sem uma concessão formal de soberania.

Isso poderia envolver um referendo para alterar a Constituição ucraniana, embora a aprovação popular seja incerta. As negociações em Abu Dhabi testarão se é possível encontrar um equilíbrio entre as exigências russas e a resistência ucraniana, definindo não apenas o destino do Donbas, mas o rumo do conflito como um todo. A complexidade dessa questão revela como interesses econômicos, estratégicos e simbólicos se entrelaçam, tornando a busca pela paz um desafio monumental.