Trump repete estratégia venezuelana com Irã em jogo de gato e rato
O mundo observa com atenção crescente os movimentos do presidente americano Donald Trump em relação ao Irã, numa repetição da estratégia de ultimatos e concentração bélica que marcou o episódio venezuelano. Com muito mais em jogo geopolítico e estratégico, Trump está aplicando a mesma tática ao regime teocrático iraniano, impondo condições que, do ponto de vista de Teerã, são simplesmente impossíveis de aceitar.
Condições inaceitáveis e a lógica do regime
O presidente americano estabeleceu três exigências fundamentais ao Irã que ecoam um ultimato: a eliminação definitiva de todo o enriquecimento de urânio e dos estoques já produzidos, a limitação rigorosa do número e alcance dos mísseis balísticos iranianos, e o fim completo do apoio às organizações armadas que o Irã sustenta no exterior. Esta última inclui grupos como o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza e os hutis do Iêmen.
Seria magnífico para a paz mundial se o Irã concordasse com tais condições, mas a realidade política interna do regime torna essa aceitação praticamente inviável. O governo iraniano se sustenta justamente no confronto com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos, e na busca não disfarçada de armas nucleares como instrumento de poder regional. Aceitar as exigências americanas equivaleria a uma rendição política que provavelmente racharia um regime já notavelmente enfraquecido pela derrocada econômica e pelos protestos em massa que, mesmo sufocados por uma repressão de dimensões pavorosas, podem voltar a eclodir diante de qualquer sinal de enfraquecimento da estrutura do poder.
Movimentação diplomática e agendas antagônicas
A iminência de um ataque americano tem mobilizado autoridades estrangeiras em Washington, indicando que todos estão pensando na mesma questão fundamental: como reagir diante da possibilidade concreta de uma ação militar dos Estados Unidos. Recentemente, baixaram na capital americana figuras-chave como o chefe da inteligência das Forças de Defesa de Israel e o ministro da Defesa da Arábia Saudita.
Cada um desses atores traz uma agenda distinta e, em muitos aspectos, antagônica. Os israelenses buscam compartilhar informações sobre alvos potenciais, enquanto os sauditas tentam evitar um conflito aberto que poderia desestabilizar ainda mais a região. Os sauditas já deixaram claro que não autorizarão o uso de seu espaço aéreo no caso de um ataque americano, principalmente pelo medo legítimo de que o regime iraniano execute uma retaliação direta contra suas vitais instalações petrolíferas.
Colaboração precificada e capacidade militar
A colaboração regional, no momento, está sendo literalmente precificada. Trump já fez enormes concessões ao príncipe Mohammad Bin Salman, considerado seu amigo pessoal, incluindo a promessa de venda de caças F35 - uma movimentação que, obviamente, contraria os interesses estratégicos de Israel. Esta poderia ser a hora de cobrar essa conta acumulada.
A proibição do uso do espaço aéreo saudita complicaria significativamente as operações militares americanas, que teriam que ser executadas a grandes distâncias. No entanto, os Estados Unidos mantêm capacidade bélica suficiente para realizar praticamente qualquer tipo de operação, mesmo que com dificuldades logísticas adicionais. O que exatamente farão torna-se o grande objeto de especulação entre analistas e governos ao redor do mundo.
Possíveis cenários e riscos de desestabilização
Entre as possibilidades discutidas está uma tentativa de decapitação dos principais líderes do regime iraniano. Israel já executou operações similares em escala limitada durante a guerra de junho do ano passado, demonstrando eficiência técnica mas com alcance insuficiente para mudar a estrutura do poder em Teerã.
Com os Estados Unidos, obviamente, a conversa é outra. Trata-se de uma potência muito mais poderosa, com condições consideradas mais favoráveis para uma mudança de regime - embora isso implique um universo de consequências desconhecidas e encontre oposição mesmo dentro da ala trompista que rejeita aventuras militares em outros países.
Os analistas concordam que o quadro é fundamentalmente diferente no Irã em comparação com a Venezuela. As forças iranianas são muito mais organizadas, bem equipadas e possuem experiência de combate real na Síria e no Líbano, o que lhes daria condições de apresentar uma resistência significativamente maior. Além disso, poderia eclodir uma guerra interna entre facções das forças de segurança favoráveis a um acordo e aquelas dispostas a combater até a morte, criando um cenário de desestabilização mundial devido ao petróleo envolvido não apenas no Irã, mas também nos países vizinhos.
Decisões finais e precedentes operacionais
As decisões finais, nas condições atuais, cabem ao aiatolá Ali Khamenei - que consistentemente tem optado pelo confronto em sua trajetória política. Sua eliminação, mesmo no fundo do bunker onde supostamente se esconde, teria a vantagem teórica de favorecer um acordo com líderes políticos mais dispostos a negociar, mas traria a desvantagem prática de insuflar o fanatismo não apenas das forças mais doutrinadas dentro do Irã, mas também de milícias xiitas no Iraque e do Hezbollah no Líbano, que o veneram literalmente como seu líder supremo.
Em junho do ano passado, quando Israel atacou instalações nucleares e líderes militares iranianos, Trump ordenou uma reação localizada que resultou no impressionante ataque dos bombardeiros B2. Estas aeronaves, conhecidas pelas formas únicas desenhadas para enganar radares e pelo apelido de "avião do Batman", saíram dos Estados Unidos, dispararam bombas capazes de perfurar montanhas contra instalações nucleares escondidas e voltaram sem pousos intermediários - uma demonstração de poderio tecnológico e operacional.
O sucesso dessa operação, somado à captura cirúrgica de Nicolás Maduro na Venezuela, talvez tenha inspirado Trump a pensar em algo muito mais audacioso contra o Irã. O mundo inteiro tenta adivinhar qual será o próximo movimento, enquanto a concentração no Oriente Médio de aviões de reabastecimento no ar, sistemas de rastreamento de radares e unidades de resgate de pilotos abatidos indica que não será algo pequeno. As apostas neste perigoso jogo de gato e rato continuam subindo, com consequências imprevisíveis para a estabilidade global.