Passagem de Rafah reabre a conta-gotas após dois anos de fechamento total
A passagem de Rafah, localizada na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, reabriu parcialmente nesta segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, após estar completamente fechada desde 2024. Esta reabertura, que ocorre sob condições extremamente restritas, representa um alívio mínimo para os palestinos, que dependem deste ponto como seu único contato direto com o mundo exterior, sem passar por Israel.
Condições restritas e trânsito limitado
As autoridades israelenses anunciaram a abertura da passagem nos dois sentidos para residentes locais, mas com severas limitações. Segundo relatos da imprensa egípcia, apenas cerca de 50 pessoas poderão transitar diariamente nos primeiros dias. A televisão israelense Kan informou que aproximadamente 150 indivíduos sairão de Gaza nesta segunda-feira, incluindo 50 doentes, enquanto outros retornarão do Egito. A fronteira funcionará por cerca de seis horas por dia, conforme detalhado por fontes locais.
Uma fonte na fronteira declarou à agência de notícias AFP que apenas algumas dezenas de pessoas chegaram pelo lado egípcio na esperança de conseguir atravessar. Os palestinos que desejarem voltar a Gaza enfrentarão restrições adicionais, como a proibição de objetos metálicos ou eletrônicos e quantidades limitadas de medicamentos, de acordo com a embaixada palestina no Cairo.
Ajuda humanitária continua bloqueada
Apesar da reabertura, a entrada de ajuda internacional em Gaza permanece bloqueada. As Nações Unidas e diversas organizações humanitárias vinham pressionando pela abertura da divisa, mas, por ora, a assistência proveniente do Egito continua a transitar pelo posto fronteiriço israelense de Kerem Shalom, localizado a poucos quilômetros de Rafah. Esta situação agrava a grave crise humanitária no território palestino, devastado por dois anos de guerra entre Israel e o Hamas.
As autoridades israelenses condicionaram as travessias à obtenção de uma autorização de segurança prévia, em coordenação com o Egito e sob a supervisão da missão europeia de vigilância conhecida como EUBAM Rafah. Um porta-voz do Hamas, Hazem Qasem, advertiu que qualquer obstrução ou condição imposta por Israel constituiria uma violação do cessar-fogo vigente.
Esperança para doentes e estudantes
Para muitos palestinos, a reabertura de Rafah traz uma centelha de esperança. Zakaria, um homem de 39 anos ferido há dois anos por um bombardeio israelense, expressou sua ansiedade: "Quanto mais espero, pior fica o meu estado, e temo que os médicos tenham de amputar minhas duas pernas". Outro ferido, Mohamed Nasir, descreveu a passagem como um "salva-vidas", destacando a necessidade de procedimentos médicos não disponíveis em Gaza.
Asma Al Arqan, uma estudante palestina, vê na abertura uma oportunidade para prosseguir seus estudos no exterior, simbolizando um futuro melhor. No entanto, o cessar-fogo entre Israel e o Hamas permanece frágil, com acusações mútuas de violações diárias. Pelo menos 32 pessoas morreram no último sábado devido a ataques israelenses, segundo a Defesa Civil de Gaza, que atribuiu a ação a militantes saindo de um túnel em Rafah.
Contexto do conflito e planos futuros
A reabertura total de Rafah está prevista no plano do presidente americano, Donald Trump, para encerrar a guerra desencadeada em 7 de outubro de 2023 pelo ataque do Hamas em solo israelense, que resultou na morte de cerca de 1.200 pessoas, a maioria civis. Desde então, mais de 70 mil palestinos morreram em Gaza devido à campanha militar israelense de represália, um número reconhecido por Tel Aviv na semana passada.
O posto fronteiriço está situado em uma área ainda ocupada pelo Exército israelense, do outro lado da linha amarela que marca sua retirada parcial da Faixa de Gaza. Sua reabertura também deverá permitir, em data indeterminada, a entrada dos 15 membros do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), encarregado de gerir o território durante um período de transição sob a autoridade do Conselho da Paz presidido por Trump.
Enquanto isso, a passagem de Rafah continua a ser um símbolo de resistência e desespero para os palestinos, que aguardam por mais abertura e assistência em meio a um cenário de incertezas e limitações severas.