Petrobras demite diretor executivo após polêmico leilão de gás de cozinha
A Petrobras anunciou na noite desta segunda-feira, 6 de maio, a destituição do diretor executivo de Logística, Comercialização e Mercados, Claudio Romeo Schlosser. A decisão foi tomada após reunião do Conselho de Administração da estatal petrolífera e ocorre em meio a uma grande controvérsia envolvendo um leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP), popularmente conhecido como gás de cozinha.
Leilão com ágio superior a 100% gera crise na estatal
Schlosser era responsável pela área da empresa que realizou, na última terça-feira, 31 de abril, o leilão de GLP que registrou um ágio impressionante de mais de 100%. Isso significa que o combustível foi vendido para distribuidoras por mais que o dobro do preço de tabela estabelecido pela Petrobras. O evento desencadeou uma série de reações negativas tanto dentro do governo quanto entre os órgãos reguladores do setor.
Dois dias após a realização do leilão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas públicas à operação, indicando claramente que ela havia sido realizada contra as orientações explícitas da empresa e do governo federal. Em entrevista à TV Record Bahia, Lula não poupou palavras ao classificar o leilão como "cretinice, bandidagem" e mencionou abertamente a possibilidade de anular completamente a venda.
"As pessoas sabiam da orientação do governo, da orientação da Petrobras de não aumentar o GLP. Pois fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras", declarou o presidente, deixando claro o descontentamento do Palácio do Planalto com a condução do processo.
ANP inicia fiscalização em refinarias da Petrobras
No mesmo dia das declarações contundentes do presidente Lula, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), órgão regulador vinculado ao Ministério de Minas e Energia, iniciou uma operação de fiscalização em refinarias da Petrobras. O objetivo principal era apurar "suspeitas de prática de preços com ágios elevados" no polêmico leilão de gás de cozinha.
Apesar de ser amplamente conhecido como gás de cozinha, o GLP também possui aplicações industriais significativas como combustível. O leilão controverso ocorreu em um cenário particularmente delicado de escalada internacional dos preços do petróleo e seus derivados, situação agravada pelos conflitos no Irã que causaram distúrbios na cadeia produtiva global da matéria-prima, ameaçando criar escassez do produto.
Paralelamente a esses eventos, o governo federal estudava ativamente meios para suavizar os efeitos da alta generalizada dos preços do petróleo e seus derivados no mercado brasileiro. A destituição do diretor Claudio Schlosser coincidiu justamente com o anúncio governamental de medidas emergenciais que incluem a zeragem de impostos e a implementação de subsídios específicos para o diesel e o gás de cozinha.
Reorganização na diretoria da Petrobras
A diretoria ocupada até esta segunda-feira por Claudio Schlosser é uma das oito que compõem a estrutura executiva sob a supervisão direta da presidente da estatal, Magda Chambriard. Entre as principais atribuições desta diretoria está a responsabilidade crucial de decidir para quais clientes e por quais valores a Petrobras comercializa seus diversos produtos.
A empresa informou oficialmente que a então diretora executiva de Transição Energética e Sustentabilidade, Angélica Laureano, assumirá imediatamente o comando da diretoria de Logística, Comercialização e Mercados. Simultaneamente, o diretor executivo de Processos Industriais e Produtos, William França, acumulará de forma temporária as funções que anteriormente eram exercidas por Laureano em sua antiga posição.
Claudio Schlosser, engenheiro químico e advogado com formação dupla, ingressou na Petrobras em 1987, inicialmente no cargo de engenheiro de processamento de petróleo. Ele assumiu a diretoria em março de 2023, durante a gestão do antecessor de Magda Chambriard na presidência da companhia, Jean Paul Prates.
Mudanças no Conselho de Administração
A Petrobras também comunicou, na mesma noite de segunda-feira, que o Conselho de Administração elegeu Marcelo Weick Pogliese como presidente do colegiado até a próxima assembleia-geral, prevista para ocorrer dentro de um prazo máximo de dez dias. Pogliese substitui Bruno Moretti, que renunciou ao cargo na última terça-feira, 31 de abril, para assumir o Ministério do Planejamento e Orçamento em substituição a Simone Tebet, que deve disputar uma vaga no Senado Federal pelo estado de São Paulo.
O Conselho de Administração representa um órgão fundamental de orientação e direção superior da Petrobras, sendo responsável pela definição das estratégias macro da empresa. É composto por um número variável de sete a onze membros eleitos diretamente pelos acionistas. A presidente Magda Chambriard integra pessoalmente este importante colegiado.
Novo indicado do governo para o conselho
Como acionista controlador da empresa, o governo federal possui o direito de indicar o presidente do conselho administrativo. A Petrobras informou que recebeu ainda na segunda-feira a indicação formal do nome do atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Santos Mello, para ocupar este posto estratégico.
Em comunicado oficial enviado ao mercado, a estatal detalhou que a indicação "será submetida à análise dos requisitos legais de gestão e integridade pertinentes" antes de qualquer confirmação definitiva. Mello possui um impressionante currículo acadêmico com doutorado em ciência econômica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestrado em economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduações em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e Ciências Econômicas pela PUC-SP.
Atualmente professor licenciado do Instituto de Economia da Unicamp (IE-Unicamp), onde atua como coordenador do programa de pós-graduação em desenvolvimento econômico, o indicado também acumula experiência em dois conselhos de administração de empresas públicas: preside o conselho do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e integra o Conselho de Administração da Empresa Brasileira de Administração de Petróleo e Gás Natural S.A. - Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA).
Contexto de preços dos combustíveis
Este episódio ocorre em um momento particularmente sensível para os preços dos combustíveis no Brasil. De acordo com dados recentemente divulgados pela Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem dos preços praticados nas refinarias da Petrobras atingiu valores preocupantes: R$ 3,05 por litro para o óleo diesel e R$ 1,61 para a gasolina comum. Apesar desses números, a Petrobras mantém publicamente sua política de reajustes e nega qualquer defasagem significativa nos preços de seus produtos.



