A Organização Mundial da Saúde (OMS) e autoridades de diversos países acompanham a origem do surto de hantavírus a bordo do cruzeiro MV Hondius, que já causou três mortes e pelo menos seis casos confirmados. A embarcação se aproxima das Ilhas Canárias, na Espanha, onde passageiros e parte da tripulação começarão a desembarcar nas próximas horas.
Operação de desembarque em Tenerife
O navio, operado pela empresa holandesa Oceanwide Expeditions, permanecerá ancorado próximo à costa de Tenerife para uma operação considerada inédita pelas autoridades espanholas. Segundo a operadora, todos os passageiros e alguns tripulantes devem começar a desembarcar por volta das 4h (horário de Brasília). Assim que deixarem o navio, serão encaminhados diretamente para voos organizados por seus respectivos países.
A operação prevê que os passageiros sejam examinados primeiro a bordo. Depois, o Exército espanhol os transferirá para terra firme em uma embarcação menor e, em seguida, em ônibus isolados da população local até o aeroporto de Tenerife Sul. O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, afirmou que o mecanismo foi montado para impedir contato com a população civil. Segundo ele, os espanhóis desembarcariam primeiro, seguidos por grupos organizados por nacionalidade, conforme os voos de repatriação estivessem prontos.
O navio seguirá para a Holanda, onde o governo holandês e a empresa responsável ficarão encarregados do processo de desinfecção. A operação será acompanhada pela OMS.
Declarações da OMS
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, chegou a Tenerife no último sábado (9) para supervisionar o desembarque. Em carta aberta aos moradores das Canárias, ele tentou tranquilizar a população local e afirmou que o risco para a saúde pública era baixo. “Preciso que me escutem com clareza: isto não é outra covid. O risco atual para a saúde pública derivado do hantavírus continua sendo baixo”, escreveu Tedros.
Apesar disso, o chefe da OMS reconheceu que a cepa registrada no cruzeiro é grave. “Três pessoas perderam a vida, e nossos corações estão com suas famílias. O risco para vocês, em sua vida cotidiana em Tenerife, é baixo”, afirmou. “Esta é a avaliação da OMS, e não a fazemos levianamente.”
Reação dos moradores e autoridades locais
A chegada do cruzeiro provocou apreensão entre moradores de Tenerife, especialmente na região do porto industrial de Granadilla de Abona. Pessoas ouvidas pela agência AFP relataram medo de uma nova crise sanitária semelhante à pandemia de covid-19. As autoridades das Canárias chegaram a se opor à atracação do MV Hondius. O governo espanhol, porém, aceitou receber o cruzeiro após pedido da OMS. No sábado, o primeiro-ministro Pedro Sánchez afirmou que oferecer ao navio “um porto seguro” era “um dever moral e legal” da Espanha com seus cidadãos, com a Europa e com o direito internacional.
O que é o hantavírus?
O hantavírus, identificado em ao menos seis pessoas a bordo do navio que saiu da Argentina em direção a Cabo Verde, causa uma doença chamada hantavirose. Em humanos, ela pode se manifestar como Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH). De acordo com informações do Ministério da Saúde brasileiro, a infecção em humanos pode levar a um comprometimento cardíaco.
Sintomas da doença
- Fadiga
- Febre
- Dores musculares
- Dores de cabeça
- Tonturas
- Calafrios
- Problemas abdominais
Em quadros mais graves, pode levar a problemas pulmonares e cardiovasculares mais severos, podendo evoluir para a síndrome da angústia respiratória (SARA).
Transmissão do hantavírus
Os hantavírus ficam em roedores silvestres, que podem eliminar o vírus pela urina, saliva e fezes. Os roedores podem carregar o vírus por toda a vida sem adoecer. A forma mais comum de infecção humana é pela inalação de aerossóis formados a partir de excretas de roedores infectados. O vírus também pode ser transmitido por:
- Corte na pele causado por roedores
- Contato do vírus com mucosa (olhos, boca ou nariz) por meio de mãos contaminadas
- Transmissão pessoa a pessoa, relatada na Argentina e Chile, associada ao hantavírus Andes
Tratamento
Não existe tratamento específico para infecções por hantavírus. O tratamento é sintomático, com medicamentos administrados por médico especializado, segundo a gravidade de cada caso. Profissionais expostos devem usar equipamentos de proteção individual. O CDC dos EUA recomenda oxigenoterapia, ventilação mecânica, antivirais e até diálise. Casos graves podem exigir internação em UTI e intubação.
Casos confirmados no navio
Seis dos oito casos suspeitos foram confirmados, segundo a OMS. Três pessoas morreram. O primeiro caso positivo foi de um cidadão britânico de 69 anos, encaminhado para UTI em Joanesburgo. O segundo foi de uma mulher alemã que morreu no cruzeiro. Um casal holandês também morreu. A origem do contágio pode ser um voo em Joanesburgo.
O diretor-geral da OMS afirmou que a ameaça à saúde pública permanece baixa, mas alertou que mais casos podem surgir devido ao longo período de incubação. Maria Van Kerkhove reforçou que não se trata de uma nova epidemia.
Países com cidadãos a bordo
- Canadá
- Dinamarca
- Alemanha
- Holanda
- Nova Zelândia
- São Cristóvão e Nevis
- Singapura
- Suécia
- Suíça
- Turquia
- Reino Unido
- Estados Unidos
Retrospecto dos casos
O diretor da OMS detalhou cada caso suspeito:
- Primeiro caso: homem com sintomas em 6 de abril, falecido em 11 de abril. Sem amostras coletadas; hantavírus descartado inicialmente.
- Segundo caso: esposa do primeiro, desembarcou em Santa Helena, piorou em voo para Joanesburgo em 25 de abril e faleceu no dia seguinte. Amostras confirmaram hantavírus.
- Terceiro caso: mulher alemã a bordo, sintomas em 28 de abril, falecida em 2 de maio. Confirmado.
- Quarto caso: homem evacuado para África do Sul em 27 de abril, em UTI. Britânico, primeiro confirmado.
- Quinto, sexto e sétimo casos: duas pessoas estáveis no hospital, uma assintomática na Alemanha.
- Oitavo caso: homem que desembarcou em Santa Helena.
Suspeitas fora do navio
Pacientes na França, Holanda e Singapura que não estiveram no cruzeiro estão sob investigação. Em Singapura, duas pessoas foram isoladas por estarem no voo da viúva da primeira vítima. Na Holanda, uma comissária de bordo da KLM que teve contato com a viúva foi internada. Três estados dos EUA monitoram pacientes suspeitos. Um cidadão francês que teve contato com um infectado está sendo monitorado.
A OMS está trabalhando com países relevantes para rastrear o vírus e limitar a disseminação.



