O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva elegeu o fim da escala de trabalho 6x1 como uma de suas principais bandeiras para o ano eleitoral de 2026. Apesar da alta popularidade da proposta entre os trabalhadores, o Planalto enfrenta uma dura realidade: não conta com votos suficientes no Congresso Nacional para aprovar a mudança constitucional na jornada de trabalho. Diante do impasse, a estratégia adotada é levar o debate para as ruas e redes sociais, tentando criar uma mobilização popular que pressione os parlamentares.
Uma aposta política de alto risco
De acordo com análise do cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, a insistência no tema é claramente estratégica. Em entrevista ao programa Ponto de Vista, apresentado por Laísa Dall’Agnol, Noronha explicou que a proposta é vista pelo Palácio do Planalto como uma vitrine política da atual gestão e uma mensagem direta ao eleitorado. A ideia é transformar o fim da escala 6x1 em um símbolo do compromisso do governo com a classe trabalhadora.
O governo já planeja mobilizações para o mês de maio, tradicionalmente marcado por discussões trabalhistas, com o objetivo claro de ampliar a pressão sobre o Legislativo. No entanto, o caminho para a aprovação é cheio de obstáculos. A principal resistência vem de parlamentares ligados à frente do empreendedorismo, que temem os impactos da medida sobre micro e pequenas empresas, setor responsável por grande parte dos empregos no país.
O dilema econômico e eleitoral
Enquanto o governo vê o tema como uma bandeira popular, a maioria dos economistas faz um alerta severo. Eles avaliam que a simples redução da jornada, se implementada de forma abrupta, poderia resultar em uma queda monumental do Produto Interno Bruto (PIB) num primeiro momento. O argumento é que as empresas menores teriam enorme dificuldade para absorver os custos da mudança, ao contrário das grandes corporações, que possuem mais flexibilidade para se adaptar.
Para os parlamentares, especialmente os que buscam a reeleição, a popularidade da proposta cria um dilema quase insolúvel. Quase a totalidade da Câmara dos Deputados e cerca de dois terços do Senado estarão em campanha. Se o debate ganhar força durante o período eleitoral, será muito difícil para um congressista se posicionar contra a medida sem causar desgaste com sua base de eleitores.
Estratégia do Planalto: vencer ou capitalizar a derrota
O governo trabalha com dois cenários possíveis para o desfecho dessa batalha. No primeiro, caso consiga a aprovação da proposta, apresentará a mudança como uma conquista histórica para os trabalhadores, um trunfo eleitoral de peso. No segundo, se a proposta não avançar, a estratégia será atribuir o fracasso à oposição no Congresso, explorando politicamente a resistência ao projeto para mobilizar o eleitorado.
Noronha lembra que, no final de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um texto sobre o tema de forma relativamente rápida, pegando parte do Congresso de surpresa. Esse episódio demonstrou que o assunto pode ganhar velocidade caso entre de vez na agenda política e eleitoral. O presidente Lula já citou publicamente o fim da escala 6x1, e integrantes do governo reforçam que o assunto é prioritário, indicando que a tensão entre Executivo e Legislativo só tende a aumentar nos próximos meses.
Assim, o que começou como uma proposta de mudança na legislação trabalhista transformou-se em um dos principais campos de batalha política do ano eleitoral, com o governo disposto a usar todas as ferramentas – das mobilizações de rua ao discurso presidencial – para tentar virar o jogo no Congresso.