Policial penal conquista posse após superar desligamento por gravidez em Roraima
Thainá Santos, de 28 anos, viveu um momento de "felicidade gigantesca" ao tomar posse como policial penal nesta quarta-feira (4) em Boa Vista, capital de Roraima. A cerimônia marcou não apenas o início da estabilidade financeira que ela sempre buscou, mas também o desfecho de uma trajetória profissional interrompida quando, durante o curso de formação, descobriu que estava grávida e foi impedida de continuar.
Trajetória interrompida pela gestação
Aprovada no concurso realizado em 2020, Thainá havia passado por todas as etapas seletivas:
- Prova objetiva
- Teste de aptidão física
- Avaliação psicológica
- Exame toxicológico
- Investigação social
Quando o curso de formação começou, ela já estava com seis meses de gestação. Conseguiu seguir por um mês, mas foi desligada quando completou sete meses de gravidez, por decisão administrativa da Secretaria de Justiça e Cidadania de Roraima (Sejuc).
"Me senti punida. Me chamaram numa sala e disseram que a partir do outro dia eu não precisava mais ir. Acredito que deveria haver adaptação para não prejudicar as mulheres. Um homem não seria desligado por ser pai, e eu fui desligada por ser mãe", relatou a nova policial penal.
Batalha judicial pelos direitos
Determinada, Thainá buscou a Justiça para tentar retornar ao curso ainda grávida. Na época, pagou R$ 3 mil a um advogado particular, mas não conseguiu reverter a medida imediatamente.
A situação mudou em 2023, quando a Promotoria de Justiça de Defesa da Mulher, do Ministério Público, cobrou que a Sejuc reconsiderasse o desligamento. A promotora Lucimara Campaner frisou que a gravidez não poderia ser condição para impedir uma mulher de avançar no concurso, tampouco obstáculo para acessar cargo público e carreira profissional.
Com a intervenção do Ministério Público, ficou definido que Thainá poderia concluir a formação após o nascimento do filho — e foi exatamente o que aconteceu.
Retorno triunfante com o filho
O retorno ocorreu em 2023, quando o filho Théo Lucca estava com nove meses de vida. "Não gosteria que outras mulheres passassem pelo que eu passei. Ainda estava amamentando e cumpri as etapas que não podia fazer grávida", relembrou Thainá.
Nas redes sociais, ela compartilhou duas fotos simbólicas: uma ainda grávida, pouco antes de ser desligada do curso de formação; e outra, três anos depois, empossada, com o filho ao lado.
"Espero que seja só a primeira de muitas conquistas. E que o que aconteceu comigo não aconteça com outras mulheres", disse ela, agora pronta para atuar em uma das unidades prisionais do estado.
Concurso quase perde validade
A trajetória de Thainá enfrentou ainda mais obstáculos. O concurso da Polícia Penal ficou suspenso por cerca de 15 meses devido a questionamentos judiciais sobre supostas irregularidades no exame psicotécnico.
O prazo de validade do certame se encerraria em 29 de setembro de 2025. Três dias antes, Thainá publicou um vídeo sobre sua própria trajetória e de colegas formados que ainda aguardavam posse. A gravação ultrapassou 100 mil visualizações, ajudou a dar visibilidade ao caso e contribuiu para evitar que o concurso perdesse a validade.
"Se não fosse essa repercussão, muitas pessoas ficariam de fora", afirmou.
Desigualdade nas vagas
Thainá também destacou a desigualdade no processo seletivo. O edital reservava 70% das vagas para homens e apenas 30% para mulheres.
"Se fosse apenas por nota, eu já estaria trabalhando há três anos. Teve homem com 60 pontos que passou, e mulher com 68 ficando de fora. Em outra chamada, homens com 56 pontos entraram e mulheres com 60 ficaram de fora. Eu fiz 62", contou.
Vitória coletiva
Além de Thainá, outros 73 novos policiais penais foram empossados na mesma cerimônia. Com isso, o quadro efetivo da Polícia Penal de Roraima passa a contar com 877 servidores na área.
A promotora Lucimara Campaner destacou que o caso de Thainá simboliza a proteção dos direitos das mulheres e a garantia de segurança profissional. "Foram noites de choro e desespero. Mas deu certo. Hoje, só quero trabalhar, dar o meu melhor e agradecer a Deus", concluiu a policial penal.
Antes de passar para a Polícia Penal, Thainá estudou para concurso por oito anos. Durante o processo de retorno ao curso de formação, ela também foi aprovada para Guarda Civil Municipal de Boa Vista, mas optou por permanecer na Polícia Penal por ser um cargo estadual.
