PGR defende arquivamento de inquérito contra juiz que soltou condenado por destruir relógio histórico
PGR pede arquivamento de inquérito contra juiz que soltou réu

Procuradoria-Geral da República defende arquivamento de inquérito contra magistrado

A Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma manifestação defendendo o arquivamento do inquérito que investiga possível crime de desobediência cometido pelo juiz Lourenço Migliorini Fonseca Ribeiro, da Vara de Execuções Penais de Uberlândia. O magistrado é investigado por ter autorizado a soltura de Antônio Cláudio Alves Ferreira, condenado por destruir o relógio histórico do Palácio do Planalto durante os atos de 8 de janeiro de 2023.

Argumentação da PGR sobre ausência de dolo

A manifestação, assinada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, na última terça-feira (3), argumenta que, embora o juiz tenha extrapolado a competência delegada pelo STF, não há indícios de dolo na decisão. Segundo Gonet, o magistrado não tinha a intenção de desobedecer uma ordem do ministro Alexandre de Moraes, o que afastaria a possibilidade de responsabilização criminal.

Conforme o parecer enviado ao ministro Moraes, relator dos processos ligados aos ataques golpistas, Gonet afirmou que Migliorini "exarou decisão exorbitando de sua esfera de competências devido à negligência em conferir o inteiro teor do procedimento, tendo se contentado com os dados exibidos pela plataforma virtual". A PGR destacou ainda limitações do Sistema Eletrônico de Execução Unificado (Seeu), que não sinaliza com clareza quando a execução penal está sob responsabilidade do STF, cenário que pode ter induzido o juiz ao erro.

Depoimento do juiz e contexto da soltura

Durante depoimento à Polícia Federal (PF), o juiz afirmou que a liberação do réu foi resultado de um equívoco no sistema eletrônico, que cadastrou o processo como se fosse de competência da vara onde atua. "O magistrado classificou tal equívoco como lamentável e afirmou que o erro cadastral o levou a crer que estaria atuando em um processo de sua competência, caso contrário, jamais teria decidido", diz trecho do depoimento.

Na decisão para progressão de regime ao semiaberto, o juiz considerou que Antônio cumpriu a fração necessária de pena, era réu primário, tinha boa conduta carcerária e ausência de faltas graves. Foram estabelecidas condições como:

  • Permanecer em casa em tempo integral, exclusivamente em Uberlândia
  • Não sair da residência até autorização para trabalho externo
  • Comparecer ao Presídio Jacy de Assis ou à Vara de Execuções Penais quando solicitado
  • Fornecer material genético para banco de dados nacional

Reversão da decisão e condenação do réu

Com a determinação do STF, a PF cumpriu novo mandado de prisão contra Antônio Cláudio, que voltou para o Presídio Professor Jacy de Assis em 20 de junho. O réu foi condenado pelo STF a 17 anos de prisão por cinco crimes:

  1. Abolição violenta do Estado Democrático de Direito
  2. Golpe de Estado
  3. Associação criminosa armada
  4. Dano qualificado
  5. Deterioração de patrimônio tombado

Além da pena privativa de liberdade, ele foi condenado ao pagamento de R$ 30 milhões por danos morais coletivos.

Relógio histórico e restauração

O relógio destruído pelo réu, durante os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, foi um presente da Corte Francesa para Dom João VI, confeccionado por Balthazar Martinot, relojoeiro do rei Luís XIV. Após restauração em parceria com o governo da Suíça, a peça foi reintegrada ao acervo da Presidência da República.

Continuidade da sindicância administrativa

Apesar de pedir o arquivamento da investigação criminal no STF, o procurador-geral observou a continuidade da sindicância administrativa já instaurada, que deve seguir apurando eventuais responsabilidades disciplinares cometidas pelo juiz. O crime de desobediência, previsto no artigo 330 do Código Penal, é considerado de menor potencial ofensivo, com pena de detenção de 15 dias a 6 meses, além de multa.