Gavião-asa-de-telha rouba cena em 'Hamnet' e encanta crítica antes do Oscar
Gavião-asa-de-telha brilha em 'Hamnet' e encanta crítica

Gavião-asa-de-telha se destaca em 'Hamnet' e encanta crítica antes do Oscar

A poucos dias da cerimônia do Oscar, as especulações sobre os favoritos ganham força. Entre os títulos que disputam as estatuetas, um nome em especial tem sido aposta frequente: "Hamnet". O drama, indicado em oito categorias, retrata a família de William Shakespeare e traz um olhar intenso sobre o período que antecedeu a escrita da famosa peça "Hamlet". Na adaptação dirigida por Chloé Zhao, os holofotes se voltam para Agnes, esposa do dramaturgo, cujo protagonismo feminino é enaltecido de forma poética, revelando seu vínculo único com o meio ambiente.

A relação singular com a ave de rapina

Além do conhecimento sobre curas por plantas medicinais, o que magnetiza o espectador é a relação singular de Agnes com uma ave de rapina, que ela carrega com confiança no punho. A floresta onde a personagem transita é seu refúgio e local de pertencimento, e a arte da falcoaria — atividade comum na época — é retratada com simbolismo. Shakespeare era um entusiasta da prática, fazendo referências em diversas obras, como em "Romeu e Julieta", onde há menções à atividade.

O biólogo e falcoeiro Alexandre Crisci Pessoa comenta: "Naquela época, a falcoaria tinha forte influência na cultura e na linguagem, principalmente nas artes". Em "Hamnet", o primeiro encontro entre Shakespeare e Agnes acontece justamente enquanto ela ampara sua ave no braço, despertando o interesse imediato do escritor e dando início ao flerte. No desenrolar da trama, a espécie ressurge trazendo metáforas sobre o feminino, o espírito e a liberdade.

Curiosidades sobre o gavião-asa-de-telha

A espécie treinada pela personagem é um gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus), um rapinante exclusivo das Américas, introduzido na Europa muito depois do período retratado, devido à sua excelente aptidão ao treinamento. Nos Estados Unidos, é conhecido como Harris's hawk, em homenagem ao ornitólogo Edward Harris. No Brasil, o gavião-asa-de-telha possui ampla distribuição, sendo encontrado de campos a ambientes urbanos, mas a subespécie utilizada no filme é natural da América do Norte.

Alexandre explica: "O gavião-asa-de-telha ocorre do sudoeste dos Estados Unidos até o centro da Argentina. A subespécie da América do Norte é a Parabuteo unicinctus harrisi, enquanto a do Brasil é a Parabuteo unicinctus unicinctus. Elas se diferenciam principalmente no tamanho: a do Norte é maior que a nossa". Entre as características impressionantes da ave está a habilidade de caçar em grupo — um comportamento raro entre rapinantes.

Anacronismos e licenças poéticas

Embora visualmente impactante, a presença do gavião-asa-de-telha no século XVI é um anacronismo, já que a espécie só chegou ao Reino Unido no final da década de 1960. Crisci pontua: "Se fôssemos rigorosos com a fidelidade histórica, o uso da espécie estaria equivocado. Acredito que escolheram essa ave por ser versátil e a favorita na falcoaria moderna. Ela está ali para simbolizar a arte e despertar sentimentos, não para representar o período com exatidão".

Outro detalhe curioso é a sonoplastia: quando o gavião de Agnes decola, o som ouvido pelo público é, na verdade, o grito do gavião-de-cauda-vermelha, frequentemente usado no cinema para representar qualquer ave de rapina por ser mais "imponente". Se a produção buscasse precisão histórica total, as espécies utilizadas deveriam ser o bútio-comum, o falcão-peregrino ou o açor, aves que de fato habitavam a Inglaterra de Shakespeare.

A arte milenar da falcoaria

A falcoaria surgiu há cerca de três mil anos, na Ásia, como uma ferramenta de sobrevivência para garantir alimento. Com o tempo, transformou-se em esporte, símbolo de status e, hoje, em uma importante técnica de controle de fauna. Na Idade Média, a falcoaria era um símbolo social quase exclusivo da nobreza, com a ave no punho denunciando a classe social: a alta nobreza portava falcões-gerifaltes e peregrinos, enquanto camponeses utilizavam o bútio-comum. As mulheres, como Agnes, também eram tutoras ativas, geralmente manejando aves de menor porte.

Seja nas telas do cinema ou na natureza real, a falcoaria permanece como um elo de admiração e respeito, equilibrando a técnica humana com a intuição selvagem. O filme "Hamnet" utiliza essa arte para enriquecer a narrativa, mesmo com algumas liberdades criativas, destacando a conexão entre personagem e ambiente em uma história que promete emocionar no Oscar.