Um dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), divulgado nesta segunda-feira (26), revela que pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025. O número representa uma queda significativa de 34,4% em relação às 122 mortes contabilizadas no ano anterior, mas mantém o país como o mais perigoso do mundo para essa população pelo décimo sétimo ano consecutivo.
Perfil das vítimas e estados com mais casos
Entre as vítimas estão Paula Nascimento Batista, Valkiria Ferreira da Silva, Rhianna Alves, Carmen de Oliveira Alves, Neuritânia Pacheco, Gabriella da Silva Borges, Raquelly Leticia e Alice Martins Alves, cujas histórias ilustram a brutalidade dos crimes. O perfil predominante é de jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos com requintes de crueldade. A vítima mais nova tinha apenas 13 anos.
Ceará e Minas Gerais registraram o maior número de mortes, com 8 casos cada. Em seguida, aparecem Bahia e Pernambuco, com 7 casos cada, e Maranhão, Pará e Goiás, com 5 casos cada. A distribuição geográfica evidencia a interiorização da violência: 67,5% dos assassinatos ocorreram em cidades do interior, contra 32,5% nas capitais.
Metodologia e subnotificação
O levantamento da Antra é baseado em informações publicadas em reportagens, redes sociais e fontes não governamentais, já que o Estado brasileiro não produz dados oficiais com esse recorte. Segundo Bruna Benevides, presidente da associação, essa dependência de fontes públicas gera um risco elevado de subnotificação.
"A ausência de registros em determinados estados está diretamente relacionada à subnotificação estrutural, à invisibilidade das identidades trans nos boletins de ocorrência e à recusa institucional em reconhecer crimes como transfóbicos", explica Bruna. Ela ressalta que muitos crimes são registrados com nomes civis incorretos ou gêneros errados, impedindo sua inclusão nas estatísticas.
Por que a queda não significa melhora
O dossiê dedica um capítulo inteiro para alertar que a redução numérica não reflete uma melhora no cenário real. Seis fatores principais são apontados:
- Dificuldades crescentes de monitoramento devido à falta de cooperação estatal
- Retração da mídia tradicional, com 49% dos casos divulgados apenas em portais regionais
- Controle nas redes sociais que limita denúncias de violência
- Ataques às organizações que monitoram esses crimes
- Medo e isolamento da população trans, que evita espaços públicos
- Descrédito nas instituições, levando vítimas a não registrar ocorrências
Caso emblemático em Minas Gerais
Um dos casos mais chocantes de 2025 foi o de Alice Martins Alves, de 23 anos, espancada ao sair de um bar na Savassi, em Belo Horizonte, por ter esquecido de pagar uma conta de R$ 22. Dois funcionários do estabelecimento foram acusados pelo crime. Sua irmã, Gabrielle Martins, destacou a negligência da sociedade e do poder público em relação à população LGBTQIA+.
Medidas necessárias para combater a violência
Bruna Benevides enfatiza a urgência de políticas específicas e integradas, incluindo:
- Produção de dados oficiais com recorte de identidade de gênero
- Políticas de prevenção à violência e formação das forças de segurança
- Investigação adequada dos crimes e responsabilização dos autores
- Políticas de inclusão social com acesso a trabalho, saúde e educação
- Enfrentamento direto à transfobia institucional
O documento da Antra serve como um alerta contundente: enquanto o Estado não assumir a responsabilidade de produzir dados confiáveis e implementar políticas efetivas, a violência contra pessoas trans continuará sendo uma realidade invisibilizada no Brasil.