Agricultores e criadores da região de Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro, estão acumulando prejuízos significativos por conta de uma combinação de fatores: a seca prolongada e a abertura não comunicada das comportas do Canal das Flexas. A situação, que se agrava a cada dia, coloca em risco a subsistência de famílias e a produção local.
Decisão polêmica agrava estiagem
O Canal das Flexas, infraestrutura construída na década de 1940 para auxiliar a agricultura, tornou-se o centro de um conflito. Produtores relatam que as comportas foram abertas sem qualquer aviso prévio, dificultando o planejamento e a gestão dos recursos hídricos já escassos. A medida foi tomada mesmo com a Lagoa Feia registrando nível de 1,89 metro, abaixo dos 2,10 metros considerados necessários para justificar a ação.
Além do nível baixo, a Lagoa Feia sofre com problemas de assoreamento, o que compromete ainda mais a qualidade e a disponibilidade da água para a região. A falta de transparência na operação do canal, gerida por decisões colegiadas do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) e do Comitê da Bacia do Baixo Paraíba do Sul, é um dos pontos que mais geram insatisfação entre os trabalhadores rurais.
Impactos diretos na produção e na criação
Os prejuízos não são apenas números em um papel. Eles se materializam na vida real dos produtores. Fernando Teles, criador de gado com 25 anos de experiência, viu seus animais sofrerem com a escassez de água. Ele relata perdas financeiras graves e, em casos extremos, a morte de animais por falta do recurso essencial.
A crise é sentida em diferentes frentes da agropecuária. Elianio Ribeiro, que atua com piscicultura e criação de camarões em duas propriedades na baixada campista, enfrenta problemas tanto na água doce quanto na salgada. A redução no nível das águas afeta diretamente a saúde e a produtividade dos seus cultivos, demonstrando que a escassez hídrica não poupa nenhum segmento.
Futuro incerto para o campo
A insatisfação generalizada tem levado muitos produtores a um ponto de ruptura. Cansados de lidar com decisões que parecem ignorar a realidade do campo, muitos agricultores consideram abandonar a atividade rural. A migração para a cidade ou a simples desistência do trabalho na terra são opções cada vez mais presentes nos planos dessas famílias.
A situação expõe uma falha crítica na comunicação e no planejamento entre os órgãos gestores e os principais afetados pelas políticas hídricas. Enquanto a seca prolongada já era um desafio considerável, a ação não coordenada na abertura das comportas do Canal das Flexas atuou como um agravante, deixando um rastro de incerteza e prejuízo no principal município do Norte Fluminense. O desfecho dessa crise será crucial para definir o futuro do agronegócio na região.