Protestos contra ICE nos EUA: medo e deportações marcam vida de imigrantes
A vida à sombra do medo tornou-se uma realidade árida para muitos dos 2 milhões de brasileiros que residem atualmente nos Estados Unidos. Em meio a protestos crescentes contra o ICE, a polícia migratória do governo Donald Trump, a truculência das ações policiais gera divisões e impacta profundamente as comunidades imigrantes.
Cenário de tensão e manifestações
Dez tiros, um após o outro, desferidos por agentes federais, atingiram o enfermeiro americano Alex Pretti, de 37 anos, já imobilizado no chão durante uma manifestação em Minneapolis. Este incidente, ocorrido em um sábado de janeiro, simboliza a escalada da violência associada à política anti-imigração de Trump. Imagens de câmeras que circularam globalmente contradizem as alegações de legítima defesa apresentadas pelas autoridades, alimentando a indignação pública.
Milhares de pessoas têm saído às ruas, mesmo sob temperaturas glaciais, para protestar contra o ICE. O movimento alcançou um ponto de fervura tão intenso que o próprio presidente Trump sentiu a necessidade de abrandar taticamente suas ações, embora sem recuar de sua promessa de campanha de liderar a maior deportação em massa da história dos Estados Unidos.
Impacto nas comunidades imigrantes
A caçada a imigrantes ilegais expandiu-se para além daqueles em situação irregular com antecedentes criminais, colocando na mira qualquer pessoa com aparência estrangeira, independentemente de sua documentação. Policiais adentram casas sem mandado e aparecem de surpresa até em escolas, onde o índice de faltas aumentou devido ao medo generalizado.
Para os brasileiros nos EUA, a situação é particularmente preocupante. Mais de 3.000 brasileiros foram deportados no último ano, um aumento de quase 100% em relação a 2024, segundo dados do Itamaraty. Em cidades como Boston, onde a comunidade brasileira é significativa, qualquer indivíduo que pareça suspeito aos olhos do ICE pode ser abordado, interrompendo sonhos e separando famílias.
Casos emblemáticos e estratégias de sobrevivência
Histórias como a de Frilei Brás, um mineiro de 39 anos que vivia em Boston há duas décadas, ilustram a crueza da política atual. Com autorização de trabalho e uma vida estabelecida, ele foi surpreendido com uma ordem de deportação, deixando para trás sua família e seu clube de futebol. Foi profundamente triste ser arrancado do lugar onde vivi por tanto tempo, relatou ele, já de volta ao Brasil.
Diante do aperto do cerco, imigrantes adotam estratégias variadas de sobrevivência, como não falar inglês em público para esconder o sotaque, vestir-se como americanos típicos e até usar drones para verificar a presença de patrulhas do ICE. Redes de cidadãos atuam como observadores, registrando violações e abusos em seus celulares para proteger a comunidade.
Contexto político e reações
Especialistas apontam que Trump age movido por cálculos eleitorais, preocupado com as eleições de meio de mandato. Trump agiu porque se preocupa em perder as eleições, mas sua política não vai mudar, afirmou o cientista político Terry Moe, da Universidade Stanford. A maioria dos americanos (58%) acredita que o presidente perdeu a mão, refletindo uma crescente insatisfação com os excessos do ICE.
Além disso, o governo suspendeu a emissão de vistos de imigração para 75 países, incluindo o Brasil, dificultando ainda mais os planos de quem busca uma vida melhor nos Estados Unidos. É um retrocesso para uma nação construída por imigrantes, avalia a advogada Anna Law, do Brooklyn College, destacando os impactos morais e econômicos dessa política.
Conclusão: um sonho que vira pesadelo
Enquanto protestos continuam a ecoar pelas ruas americanas, a vida dos imigrantes permanece marcada pela incerteza e pelo temor. Casos como o de Sara Pereira, que voltou ao Brasil com a família para não se separar, mostram as escolhas difíceis impostas por esse cenário. Com deportações em alta e uma política que divide a sociedade, o sonho americano transforma-se, para muitos, em um pesadelo real e diário.