Professor brasileiro relata intimidação por agentes do ICE em Minnesota nos EUA
Brasileiro relata intimidação por agentes do ICE nos EUA

Professor brasileiro relata intimidação por agentes do ICE em Minnesota

O professor brasileiro Pedro de Abreu Gomes dos Santos, em entrevista ao podcast O Assunto desta quarta-feira (21), narrou um encontro tenso com agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement) em um bairro de maioria latina em Minnesota, nos Estados Unidos. O incidente ocorreu no contexto de um aumento significativo das operações federais no estado, onde a presença da agência de imigração foi ampliada drasticamente pela administração federal.

Abordagem agressiva e questionamento legal

No dia seguinte à morte da americana Renée Nicole Good, de 37 anos, baleada por um agente do ICE no início de janeiro, Pedro testemunhou cerca de dez agentes tentando entrar em residências. Como integrante de um grupo de resposta rápida às operações da agência, em defesa dos imigrantes abordados, ele questionou a legalidade das ações. "Quando um deles passou do meu lado, eu perguntei: 'Você tem o mandado de prisão ou o mandado de busca e apreensão?'", relatou o professor.

A resposta do agente foi imediata e hostil. "A primeira pessoa que eu perguntei olhou para mim com muita raiva e perguntou: 'Você tem os seus documentos? Você pode provar que você é cidadão americano?'". Amparado pela legislação local, Pedro recusou-se a apresentar identificação, afirmando que, como cidadão naturalizado, não era obrigado a fazê-lo naquela circunstância. Ele é casado com uma americana, pai de filhos americanos e leciona Ciência Política no College of Saint Benedict e na Saint John’s University.

Tensão e diferenças entre agentes

A situação só se acalmou com a chegada de um supervisor, embora o professor ressalte que a "calma" era relativa. "Tivemos uma conversa muito mais calma... Calma para eles. Estava ele na minha porta do carro e seis agentes rodeando o meu carro", disse ele. Pedro aponta uma distinção clara entre os agentes de carreira e os novos recrutas, observando que o questionamento das ações do ICE frequentemente gera reações violentas por parte dos menos treinados.

"Eles ficam nervosos quando as pessoas começam a filmar porque não podem mais fazer o que estavam fazendo, que normalmente são coisas ilegais", explicou o professor, destacando como a vigilância cidadã pode inibir abusos.

Plano de emergência familiar e impacto comunitário

O impacto dessas abordagens e o clima de vigilância constante forçaram Pedro a traçar um plano de emergência com sua família. Diante da possibilidade de novos processos de desnaturalização movidos pelo governo, o que antes era impensável tornou-se uma necessidade logística. Ele e sua esposa estabeleceram protocolos detalhados para enfrentar uma possível prisão ou deportação:

  • Reserva financeira: criação de um fundo de emergência específico para custear viagens repentinas.
  • Prontidão de documentos: organização de toda a documentação necessária para acesso imediato, alterando a rotina anterior da família.
  • Vigilância permanente: hábito de portar documentos de cidadania em tempo integral, prática que se estendeu a outros brasileiros na região.

"Eu e minha esposa já começamos a conversar sobre o que fazer caso eu seja preso ou caso eu seja deportado. É realmente uma coisa que eu nunca pensei em ter que planejar", desabafou o professor. Para ele, o receio é agravado por ser uma figura visível em eventos de resistência e monitoramento.

Pedro observa que esse sentimento de insegurança é generalizado, afetando desde brasileiros com green card até crianças da comunidade somali, que mesmo americanas natas, hoje correm para casa ao avistar veículos suspeitos nos pontos de ônibus. O relato ilustra como as políticas de imigração têm gerado um ambiente de medo e precaução extrema entre comunidades imigrantes em Minnesota.