O dólar comercial encerrou a sessão desta sexta-feira (8) cotado a R$ 4,895, registrando uma queda de 0,54% e atingindo o menor valor de fechamento em mais de dois anos. A última vez que a moeda norte-americana havia fechado abaixo desse patamar foi em 15 de janeiro de 2024, quando terminou o dia a R$ 4,866.
Fatores que influenciaram o mercado
Durante o pregão, os investidores reagiram aos dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos, que vieram acima do esperado para o mês de abril. O Escritório de Estatísticas do Trabalho do Departamento do Trabalho dos EUA informou a abertura de 115 mil postos de trabalho fora do setor agrícola, superando a expectativa do mercado, que era de 62 mil vagas. A taxa de desemprego permaneceu estável em 4,3%.
Economistas apontam que parte do resultado pode ser atribuída a ajustes no modelo utilizado pelo governo para estimar a criação ou perda de empregos, uma vez que a alta rotatividade de empresas dificulta as projeções. Esse indicador é a principal referência para acompanhar o emprego nos EUA.
Os números reforçaram a percepção de resiliência da economia norte-americana, diminuindo os riscos de estagflação — cenário em que o crescimento econômico desacelera enquanto a inflação permanece elevada. De acordo com o FedWatch da CME, o mercado aposta majoritariamente que o Federal Reserve manterá os juros na faixa de 3,5% a 3,75% nas próximas reuniões de 2026.
Impacto no mercado doméstico
A Bolsa de Valores brasileira (Ibovespa) também foi beneficiada pelo ambiente externo favorável e encerrou o dia em alta de 0,48%, aos 184.108 pontos, recuperando parte das perdas do pregão anterior. No acumulado do ano, o dólar apresenta uma baixa de 10,8%, enquanto o Ibovespa avança 14,3%. Na semana, no entanto, tanto o dólar quanto a Bolsa recuaram: 1,2% e 1,7%, respectivamente.
Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, os dados de emprego confirmam um mercado de trabalho equilibrado e resiliente, mesmo diante do conflito no Oriente Médio. Segundo ele, o Federal Reserve enxerga uma economia que não demanda afrouxamento monetário no momento, devendo focar no monitoramento da inflação, especialmente os impactos do conflito.
Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, destaca que o Fed ganha mais conforto para definir a trajetória de juros, afastando os temores de desaceleração econômica que flertavam com o risco de estagflação.
Cenário internacional e Oriente Médio
No exterior, o dólar caiu e as Bolsas subiram. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana, recuou 0,39%. Nos EUA, o S&P 500 e o Nasdaq fecharam em recordes, com altas de 0,84% e 1,71%, respectivamente.
O conflito no Oriente Médio continuou no radar dos investidores. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que um cessar-fogo permanece em vigor, apesar da intensificação dos combates. O secretário de Estado, Marco Rubio, informou que o país aguarda uma resposta do Irã à proposta para encerrar a guerra. Na quinta-feira, Trump disse que três destróieres da Marinha dos EUA foram atacados no estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo e gás. Os Emirados Árabes Unidos também relataram ameaças de mísseis e drones do Irã.
Para Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX, o mercado pondera entre a sinalização de Trump de que o cessar-fogo segue em vigor e o ceticismo crescente em relação a um acordo definitivo de paz. O bloqueio no estreito de Hormuz gera temor de um repique inflacionário global devido à disparada nos preços do petróleo. Nesta sexta, o contrato de julho do petróleo Brent subia 0,43%, a US$ 100,49.
Diferencial de juros atrai investidores
Os dados de emprego também reforçaram o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. No final de abril, o Fed manteve a taxa inalterada entre 3,5% e 3,75%, enquanto o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. Segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, esse diferencial beneficia o mercado doméstico e ajuda a explicar a valorização do real e da Bolsa em 2026.
Shahini afirma que o Brasil atrai fluxo para a Bolsa devido à realocação geográfica e oferece um diferencial de juros importante. O real é uma das moedas com maior carrego entre os emergentes e possui alta liquidez para investidores internacionais montarem e desmontarem posições. Ele ressalta que investidores estão aumentando a exposição a emergentes por conta da política econômica dos EUA, vendo o Brasil como um mercado com juros atrativos, espaço para cortes futuros, inflação convergindo para a meta e um Banco Central responsável.



