Endividamento recorde: 44,4% dos brasileiros adultos estão inadimplentes
Endividamento recorde: 44,4% dos adultos inadimplentes

A vendedora Ana Carla Dias de Oliveira, de 49 anos, participou do evento da Força Sindical neste 1º de maio, Dia do Trabalho, na esperança de ganhar um dos 27 sorteios de Pix, com valores entre R$ 3 mil e R$ 10 mil. No entanto, não foi sorteada. "Não foi dessa vez", lamentou ela, que em 2006 havia ganhado um apartamento de 38 m² no mesmo evento. Vendeu o imóvel para reformar a casa própria onde mora atualmente. Hoje, Ana Carla enfrenta dificuldades financeiras: está endividada e com o nome negativado. "Peguei um empréstimo de R$ 8 mil e logo depois fui demitida. Só consegui pagar a primeira parcela", contou. A dívida persiste há cerca de sete anos, e ela afirma que, mesmo empregada, continua com restrições no crédito.

Ana Carla também criticou a jornada de trabalho 6x1, um dos temas centrais das centrais sindicais nos atos deste 1º de Maio. "No meu caso, trabalho domingo sim, domingo não. A gente que é mãe e dona de casa não tem tempo para nada", desabafou.

O caso de Ana Carla reflete uma realidade comum no Brasil. Segundo a pesquisa "Radiografia da Inadimplência 2026", realizada pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil, a inadimplência do consumidor atingiu 44,4% dos brasileiros adultos em março deste ano, o maior índice desde janeiro de 2015, quando o levantamento começou a ser feito. Contrariando a ideia de que o calote está ligado ao desemprego, 82% dos inadimplentes estão trabalhando: 48% são CLT, 23% autônomos e 11% empreendedores.

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Fabiana de Oliveira França, de 47 anos, atendente de lanchonete, é um exemplo. "Estou inadimplente com cartão de crédito", disse ela, que veio de Mogi das Cruzes (SP) com o marido e a filha para o ato da Força Sindical. Fabiana recebe salário mínimo por uma jornada de 8 horas diárias, de segunda a sexta-feira, sem benefícios. "A empresa só paga condução. Ou a gente come ou paga as contas. Esse setor de alimentação paga muito pouco, não reconhece nosso trabalho", afirmou.

Apesar de ser eleitora do presidente Lula, Fabiana não apoia o uso do FGTS para quitar dívidas, como proposto pelo programa Desenrola 2, que permitiria sacar até 20% do saldo. "O nosso Fundo de Garantia é um seguro para a gente, no caso de ficar desempregado", explicou.

No evento, além dos Pix, foram sorteadas duas bicicletas e barris de chope. A organização informou que os sorteios ocorreriam após a saída de Fernando Haddad, Simone Tebet e da ex-ministra Marina Silva, para evitar acusações de crime eleitoral.

Tiago Romão de Assis, de 39 anos, marido de Fabiana, já utilizou o saque-aniversário para pagar dívidas. "No governo anterior eu fiquei endividado. É uma saída para quem está afogado", disse o metalúrgico, que ganha cerca de R$ 3.200 por mês. Para complementar a renda, ele começou a vender acessórios, como óculos e relógios, nas redes sociais. "A gente tem que buscar uma segunda alternativa, porque o que ganha não paga as contas."

Nilce Rosa Gomes da Silva, de 45 anos, auxiliar de produção em uma metalúrgica, também reclama da falta de reconhecimento e benefícios. "Não temos plano de saúde, cesta básica, vale-transporte, nada", disse ela, que ganha menos de R$ 2.000 mensais na escala 5x2. "Chega ao fim do mês e não sobra nada. É só o cartão de crédito que salva." Para Nilce, o sorteio incentivou a participação no ato, mas a defesa dos direitos trabalhistas é mais importante. "A gente quer melhorar as condições de trabalho. Estão retirando as nossas conquistas. Já cansamos de ser a base."

Roberto Gualberto, de 55 anos, ex-caixa, está desempregado e recebe auxílio-acidente após cair da laje de casa. Com dificuldade de locomoção, ele cuida da filha, que é especial. A esposa trabalha como diarista e sustenta a casa. "Estou inadimplente. Depois que fiquei desempregado, as dívidas acumularam e peguei empréstimo em banco. Queria muito quitar. Vou ver se vale a pena aderir ao Desenrola", disse.

Bernadete Teixeira, de 54 anos, dona de casa e pensionista, está com o nome sujo há seis anos devido ao atraso no IPTU do apartamento onde mora em São Bernardo do Campo. "Se eu não pagar, posso perder meu apartamento. Tenho que fazer empréstimo para sobreviver", afirmou. Ela sustenta as filhas e netas com a pensão de R$ 1.600.

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O operário do setor de vidros Armando Alves também tem dívidas, mas não pretende usar o Desenrola 2. "Pegar FGTS é bom para o governo. O trabalhador tem que ter consciência de que é um dinheiro para ficar guardado." Já Djanira de Carvalho, de 60 anos, consultora de cosméticos, diz que "todo mundo tem dívidas" e já sacou o FGTS, planejando usar novamente. "Eu gosto, me ajuda muito."