Um marco histórico nas relações comerciais internacionais foi alcançado na sexta-feira. Uma maioria qualificada dos países da União Europeia deu seu aval político ao ambicioso acordo de livre-comércio com o Mercosul, abrindo caminho para a formalização de um tratado que vinha sendo negociado há mais de duas décadas.
O fim de uma longa jornada de negociações
A aprovação, divulgada pela agência de notícias AFP, ocorre mesmo diante de protestos de agricultores europeus e da resistência inicial de nações como a França. O tratado é considerado histórico por encerrar um processo de negociação que se arrasta por 26 anos e por criar uma das maiores zonas de livre-comércio do planeta.
Juntas, as economias dos dois blocos somam cerca de US$ 22,3 trilhões em Produto Interno Bruto, envolvendo um mercado consumidor de mais de 720 milhões de pessoas.
Articulações finais e viagem para a assinatura
Com o sinal verde político, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve viajar já na próxima segunda-feira ao Paraguai. O país exerce a presidência rotativa do Mercosul em 2026 e será o palco para a formalização do acordo com as nações sul-americanas.
Enquanto isso, embaixadores dos 27 Estados-membros da UE seguem reunidos em Bruxelas para discutir os últimos detalhes do texto jurídico. A decisão final veio após intensas articulações conduzidas por Bruxelas nos últimos dias para superar as resistências remanescentes.
Superando obstáculos e garantias aos agricultores
Em dezembro, a União Europeia havia adiado a assinatura do pacto. O presidente da França, Emmanuel Macron, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, condicionaram seu apoio à adoção de salvaguardas robustas para proteger o setor agrícola europeu da concorrência.
Para enfrentar essas preocupações, ministros da Agricultura da UE se reuniram na quarta-feira. Eles anunciaram medidas de apoio, incluindo a antecipação de até 45 bilhões de euros em subsídios previstos no próximo orçamento da Política Agrícola Comum, cujo total garantido é de 293,7 bilhões de euros.
Essa sinalização foi suficiente para que a Itália retirasse sua objeção, destravando a aprovação por maioria qualificada necessária para que o tratado avance para a fase final de assinatura.
O caminho, no entanto, não foi sem protestos. Produtores rurais, principalmente na França, bloquearam estradas com tratores perto das fronteiras com Espanha e Bélgica e nos arredores de Paris. Eles criticam as regras sanitárias e pressionam o governo francês às vésperas da consolidação do tratado, temendo a concorrência de produtos do Mercosul.
Agora, com o aval político conquistado, a expectativa é que a viagem de Von der Leyen ao Paraguai na próxima semana marque o início de uma nova era nas relações econômicas entre os dois blocos, após quase três décadas de idas e vindas na mesa de negociações.