UE aprova acordo Mercosul após 20 anos, mas França lidera resistência
UE aprova acordo com Mercosul após 20 anos de negociação

Em uma decisão histórica que encerra mais de duas décadas de conversas, a União Europeia aprovou em caráter provisório o acordo comercial com o Mercosul nesta sexta-feira, 9 de janeiro de 2026. A informação foi confirmada pelas agências de notícias AFP e Reuters, com base em diplomatas do bloco europeu.

Votação apertada e próximos passos

A confirmação formal dos votos deve ser enviada por escrito até as 17h no horário de Bruxelas, que corresponde às 13h em Brasília. Com esse aval preliminar, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está autorizada a assinar oficialmente o pacto na próxima segunda-feira, 12 de janeiro, em Assunção, no Paraguai.

O acordo, negociado desde 1999, visa criar a maior zona de livre-comércio do planeta, abrangendo um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores. A proposta elimina tarifas de mais de 90% do comércio bilateral entre os blocos.

Resistência liderada pela França

Apesar da aprovação, o caminho foi marcado por forte oposição. A votação entre os embaixadores dos 27 países da UE mostrou uma maioria favorável, mas encontrou resistência firme de nações como França, Irlanda, Hungria e Polônia. Esses países manifestaram preocupação com os possíveis impactos negativos sobre seus setores agrícolas.

Na véspera da decisão, o presidente francês, Emmanuel Macron, foi veemente em sua crítica. Ele declarou publicamente que não poderia aprovar o acordo no formato atual e afirmou que os benefícios econômicos para a França e para a Europa seriam limitados, apesar de reconhecer a necessidade de diversificação comercial.

O temor central do setor agropecuário europeu é a concorrência com produtos sul-americanos como carne, arroz, mel e soja. Em contrapartida, a Europa espera ampliar as exportações de veículos, maquinário, queijos e vinhos para os países do Mercosul.

Significado estratégico e impacto para o Brasil

Para a Comissão Europeia e países como Alemanha e Espanha, o tratado é uma peça-chave na estratégia de abrir novos mercados, compensar perdas comerciais causadas pelas tarifas dos Estados Unidos e reduzir a dependência da China, garantindo acesso a minerais críticos.

Para o Brasil, maior economia do bloco sul-americano, a aprovação representa uma porta de entrada ampliada para um mercado consumidor de mais de 450 milhões de pessoas. Os impactos potenciais vão além do agronegócio, podendo beneficiar diversos segmentos da indústria nacional.

O caminho ainda é longo

A assinatura em Assunção não significa a entrada imediata em vigor do acordo. No lado europeu, é necessária também a aprovação do Parlamento Europeu, que tem um prazo de várias semanas para se pronunciar.

Esta etapa final está cercada de incertezas. Cerca de 150 eurodeputados, de um total de 720, já ameaçaram recorrer à Justiça para tentar barrar a aplicação do tratado. A França já adiantou que continuará sua luta contra o texto no âmbito parlamentar europeu.

O desfecho dessa batalha política e comercial, que se arrasta por mais de 20 anos, deve definir os rumos das relações econômicas entre dois dos maiores blocos do mundo ocidental.