Canadá e China reforçam parceria comercial, desafiando ameaças tarifárias de Trump
Canadá e China ampliam acordo comercial, EUA ameaçam tarifas

O Ministério das Relações Exteriores da China reafirmou nesta segunda-feira que os acordos comerciais e econômicos estabelecidos com o Canadá não têm como objetivo nenhum terceiro país. A declaração foi uma resposta direta às recentes ameaças tarifárias feitas pelos Estados Unidos, que prometem impor barreiras comerciais caso a parceria entre as duas nações seja consolidada.

Resposta diplomática à pressão americana

Durante uma coletiva de imprensa regular, o porta-voz do ministério, Guo Jiakun, destacou que a China acredita que as relações entre os países devem ser conduzidas com uma mentalidade de ganha-ganha, focada na cooperação e não no confronto. "Entendemos que a colaboração mútua é o caminho para o desenvolvimento sustentável, evitando cenários de soma zero que prejudicam todas as partes envolvidas", afirmou Guo.

Ameaça de Trump e nova parceria estratégica

No último sábado, o presidente americano, Donald Trump, ameaçou aplicar tarifas de 100% sobre todas as importações canadenses para os Estados Unidos, caso um acordo comercial entre o Canadá e a China seja finalizado. A declaração foi feita através de sua plataforma Truth Social, onde Trump alertou que o Canadá não deve se tornar um "porto de descarga" para produtos chineses destinados ao mercado americano.

Essa tensão surge no contexto de uma nova parceria estratégica anunciada na semana passada, após a visita do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, a Pequim. Esta foi a primeira viagem de um líder canadense à China em oito anos, marcando um esforço significativo para reconstruir os laços comerciais entre os dois países.

Detalhes do acordo comercial

Os principais pontos do acordo incluem:

  • Redução de tarifas sobre a canola canadense: A China deve diminuir as tarifas sobre este produto, que atualmente chegam a 84%, para uma taxa combinada de cerca de 15% a partir de 1º de março.
  • Entrada de carros elétricos chineses no Canadá: O Canadá planeja permitir a entrada de até 49 mil veículos elétricos chineses em seu mercado, com uma tarifa reduzida de 6,1%, bem abaixo da alíquota anterior de 100%.
  • Remoção de tarifas antidiscriminatórias: Produtos como farinhas de canola, lagostas, caranguejos e ervilhas canadenses terão as tarifas removidas a partir de março, pelo menos até o final do ano.

Impactos econômicos e reações internas

Segundo Carney, os acordos devem destravar cerca de US$ 3 bilhões em pedidos de exportação para agricultores, pescadores e processadores canadenses. Ele argumentou que, para construir um setor competitivo de veículos elétricos no Canadá, é necessário aprender com parceiros inovadores e acessar suas cadeias de suprimentos.

No entanto, a decisão enfrentou críticas internas. O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, expressou preocupação com o influxo de veículos elétricos baratos fabricados na China, sem garantias de investimentos equivalentes na economia canadense. "O governo federal está convidando uma enxurrada de produtos sem benefícios claros para nosso setor automotivo", disse Ford em uma publicação nas redes sociais.

Contexto histórico e retaliações anteriores

As relações comerciais entre Canadá e China passaram por atritos recentes. Em 2024, o ex-primeiro-ministro Justin Trudeau impôs tarifas de 100% sobre veículos elétricos chineses, seguindo medidas similares dos Estados Unidos. Em retaliação, a China aplicou tarifas sobre mais de US$ 2,6 bilhões em produtos agrícolas canadenses, como óleo e farinha de canola, o que resultou em uma queda de 10,4% nas importações chinesas de produtos canadenses em 2025.

O novo acordo representa uma mudança de direção, com Carney se afastando da justificativa protecionista de Trudeau. "Precisamos aumentar a demanda local e fortalecer nossa competitividade, não apenas nos proteger", afirmou o primeiro-ministro durante sua visita à China.

Perspectivas futuras e posicionamento dos EUA

Apesar das ameaças iniciais, Trump posteriormente expressou apoio à iniciativa de Carney, afirmando que buscar acordos comerciais com a China é uma atitude positiva. Contudo, a divergência nas políticas tarifárias entre Canadá e Estados Unidos pode influenciar a revisão do acordo comercial entre EUA, Canadá e México, prevista para breve.

O Ministério do Comércio da China confirmou que está ajustando medidas antidumping sobre a canola e outras barreiras comerciais, em resposta à redução das tarifas canadenses para veículos elétricos. Essa reciprocidade sinaliza um compromisso com a normalização das relações econômicas entre os dois países.

Com a expectativa de que a cota de carros elétricos chineses no Canadá aumente gradualmente para cerca de 70 mil veículos em cinco anos, a parceria promete redefinir os fluxos comerciais na região, enquanto os Estados Unidos observam de perto os desdobramentos.