Investigação revela venda ilegal de canetas emagrecedoras proibidas em Porto Alegre
Venda ilegal de canetas emagrecedoras proibidas em Porto Alegre

Investigadores flagram comércio clandestino de canetas emagrecedoras proibidas no centro de Porto Alegre

Uma investigação jornalística revelou o funcionamento de um mercado paralelo de canetas emagrecedoras proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em Porto Alegre. A reportagem documentou a venda aberta de ampolas de Tirzepatida, substância não autorizada no Brasil, no POP Center, shopping popular localizado no centro da capital gaúcha.

Abordagem suspeita e oferta ilegal

Antes mesmo de adentrar o estabelecimento comercial, a equipe de reportagem foi abordada por um homem que questionou se buscavam "algo especial". Ao manifestar interesse pelas chamadas "canetinhas para emagrecer", o indivíduo demonstrou desconfiança, perguntando se tratava-se de repórteres ou policiais. Após receber resposta negativa, o vendedor informal garantiu poder fornecer ampolas da marca TG, fabricadas no Paraguai, por aproximadamente R$ 1,1 mil a caixa com quatro unidades, com promessa de entrega no mesmo dia, proveniente da Zona Sul de Porto Alegre.

Instruções detalhadas e promessas milagrosas

Dentro do centro comercial, entre bancas de acessórios e brinquedos, a reportagem estabeleceu contato com outros dois vendedores que asseguraram a eficácia "milagrosa" das ampolas TG. Um deles forneceu orientações completas sobre a utilização do produto, incluindo a necessidade de adquirir seringas em farmácias e instruções sobre dosagem.

"Ela [ampola] é tratamento de um mês e emagrece 10 quilos. Posso fazer a R$ 700 'pila' para te ajudar. Emagrece 10 quilos. Quer pegar meu whats? Me manda ali que te digo como usa certinho", afirmou o jovem vendedor, garantindo que as ampolas chegariam de Canoas no mesmo dia para quem desejasse adquirir o produto.

O diálogo ocorreu durante a manhã de quarta-feira (21), com o vendedor posteriormente enviando mensagens detalhando procedimentos de armazenamento (necessidade de refrigeração) e reafirmando que não era necessária receita médica para a compra.

Ofertas variadas e procedência questionável

Outra oferta partiu de uma mulher de Três Coroas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, que comercializava a mesma ampola TG por ligação telefônica. Ela argumentou que o produto seria "mais econômico", sugerindo dosagem inicial reduzida para evitar efeitos colaterais e aumento gradual caso não houvesse perda de peso.

A vendedora orientou aplicação no abdômen, próximo ao umbigo, e ofereceu a caixa com quatro unidades por R$ 1,69 mil, aceitando apenas pagamento em dinheiro. Todas as transações documentadas ocorreram sem qualquer exigência de prescrição médica ou comprovação de necessidade terapêutica.

Especialistas alertam para riscos graves à saúde

O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo, Felipe Henning, emitiu alerta contundente sobre os perigos associados à aquisição de medicamentos sem procedência adequada. Segundo o especialista, produtos falsificados podem não conter substância ativa alguma ou, quando apresentam ingredientes farmacológicos, podem desencadear efeitos colaterais severos devido à ausência de controle de qualidade.

"O indivíduo fica extremamente vulnerável a ter problemas sérios de saúde, uma vez que ele opte por comprar algo contrabandeado, potencialmente falsificado, sem controle nenhum de procedência", afirmou Henning, destacando que medicamentos regulamentados passam por rigorosos processos de avaliação antes de serem disponibilizados ao público.

Penas severas para comerciantes ilegais

A delegada da Delegacia do Consumidor e Saúde Pública da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, Milena Simioli, esclareceu as implicações legais desse comércio irregular. Enquanto quem adquire medicamentos não analisados por órgãos regulamentadores não comete crime (embora coloque sua saúde em risco), quem comercializa pode enfrentar penas superiores às previstas para tráfico de drogas.

"Quando o medicamento apenas não tem o selo da Anvisa, ou seja, é de fato Tirzepatida, a pessoa responde pelo artigo 273, que é um crime contra a saúde pública, mas com uma pena mais reduzida, de 1 a 3 anos de reclusão. Contudo, se esse medicamento não se trata da substância que ele vende pode ser um medicamento falsificado ou de alguma forma adulterado, se responde pelo crime também contra a saúde pública, mas a pena é de 10 a 15 anos", explicou a delegada.

Investigções em andamento

A Polícia Civil confirmou que tem recebido denúncias e conduz investigações sobre o comércio clandestino de medicamentos em Porto Alegre. A delegada Milena Simioli reforçou a importância do registro formal dessas ocorrências para permitir trabalho investigativo adequado.

"É muito melhor realizar a denúncia, assim a Polícia Civil consegue fazer o trabalho investigativo e verificar se de fato se trata de medicamento falsificado, medicamento verdadeiro", concluiu a autoridade policial, orientando a população a evitar aquisição de produtos sem procedência regulamentada e a reportar atividades suspeitas às autoridades competentes.