O fechamento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2025 dentro do limite da meta inflacionária trouxe um alívio, mas não foi suficiente para alterar o cenário de cautela do Banco Central. Economistas avaliam que as pressões persistentes, especialmente no setor de serviços, e uma piora na composição qualitativa da inflação mantêm a autoridade monetária em alerta. A expectativa do mercado é de que os juros se mantenham elevados na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 27 e 28 de janeiro, com o início do ciclo de cortes sendo adiado para março.
Desafios persistentes por trás do dado positivo
Embora o resultado anual tenha sido comemorado, a análise dos componentes do índice revela desafios. Os preços de serviços subiram 6% em 2025, um movimento sustentado pelo mercado de trabalho aquecido. Para Heliezer Jacob, economista do C6 Bank, esse é um ponto de atenção. "A tendência é que o controle da inflação continue sendo uma tarefa difícil nos próximos meses, uma vez que o desemprego deve permanecer em níveis historicamente baixos até 2027", afirma.
André Valério, economista do Banco Inter, destaca a piora qualitativa observada no fim do ano. A média dos núcleos de inflação acelerou, os serviços ganharam tração mesmo descontados itens voláteis como passagens aéreas, e o índice de difusão subiu para 60%. "Apesar de a inflação ter fechado dentro do teto com antecedência em relação ao previsto pelo próprio Banco Central, o resultado de dezembro deixa um gosto amargo", avalia Valério.
Projeções para 2026 e 2027 sinalizam cautela prolongada
O otimismo com o dado de 2025 não se estende aos anos seguintes. O C6 Bank projeta um IPCA de 4,8% para 2026 e 2027, impulsionado pela força do emprego e pela expectativa de um real mais desvalorizado, em meio às preocupações com a trajetória da dívida pública. Essa estimativa é superior à mediana das expectativas do mercado, que no último Boletim Focus apontava para 4,06% em 2026.
Rafael Perez, economista da Suno Research, acredita que o IPCA de dezembro veio em linha com as expectativas e não tem força para mudar a discussão sobre juros. "O Banco Central tende a manter o plano de voo, sinalizando o início do ciclo de cortes apenas quando houver maior evidência de convergência sustentável da inflação", diz Perez.
Impacto direto na política monetária
A leitura unânime entre os analistas é de que a cautela do Banco Central se justifica. Para Julio Barros, economista do Banco Daycoval, o grande desafio está no controle da inflação mais persistente, ligada a serviços. "Esse desafio na composição da inflação, com a parte mais perene mais elevada do que a dos itens voláteis, coloca um viés de postergação no nosso cenário-base de corte de juros", explica. O Daycoval projeta IPCA de 4,1% para 2026.
Diante desse quadro, o cenário-base do mercado financeiro descarta qualquer possibilidade de corte na taxa Selic já em janeiro. A aposta mais consolidada é que o Copom iniciará um ciclo moderado de afrouxamento monetário apenas a partir de sua reunião de março, desde que os dados dos próximos meses confirmem uma trajetória consistente de desinflação.