Copom inicia ciclo de corte de juros com redução conservadora da Selic
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central iniciou, nesta quarta-feira (18), o tão aguardado ciclo de flexibilização da política monetária, reduzindo a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual. A taxa passou de 15% para 14,75% ao ano, marcando a primeira queda sob a gestão do diretor Gabriel Galípolo e interrompendo uma sequência de seis reuniões consecutivas de manutenção.
Decisão unânime em meio a incertezas globais
Apesar das turbulências provocadas pela guerra no Irã e pela disparada nos preços do petróleo, o colegiado confirmou o plano traçado em janeiro, quando sinalizou a intenção de iniciar os cortes em março. Votaram sete dos nove membros em decisão unânime, com duas vagas ainda em aberto devido ao término dos mandatos dos diretores Diogo Guillen e Renato Gomes em dezembro de 2025.
O Copom evitou sinalizar a intensidade dos próximos cortes, citando um "forte aumento da incerteza" no cenário internacional. A ideia é aguardar maior clareza sobre a profundidade e extensão dos conflitos no Oriente Médio antes de definir os movimentos subsequentes.
Expectativas do mercado e cenário externo
Às vésperas do encontro, cresceu no mercado financeiro a aposta por uma redução mais moderada. Antes da escalada do conflito, o consenso era de corte de 0,5 ponto percentual, mas a turbulência externa levou a uma postura mais conservadora. Levantamento da Bloomberg mostrou que, entre 30 instituições consultadas, 19 previam queda para 14,75%, dez projetavam 14,5% e uma acreditava na manutenção em 15%.
O cenário global também influenciou: o Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos manteve os juros entre 3,5% e 3,75% pela segunda reunião consecutiva, refletindo cautela diante da instabilidade.
Pressão do governo e histórico recente
A decisão ocorre sob crescente pressão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e dos setores produtivos por quedas mais acentuadas dos juros. Este foi o primeiro corte da Selic em quase dois anos, desde maio de 2024, quando Roberto Campos Neto ainda presidia o Banco Central. Naquela época, o alívio foi breve, seguido por um ciclo de alta que elevou a taxa a 15% ao ano em junho de 2025 – o patamar mais alto desde julho de 2006.
Inflação sob controle e riscos no curto prazo
A manutenção dos juros elevados por um período prolongado ajudou o BC a conduzir a inflação em direção à meta. No acumulado de 12 meses até fevereiro, o IPCA chegou a 3,81%, próximo do alvo central de 3% (com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual). No entanto, nas últimas semanas, surgiram riscos de curto prazo, com o barril de petróleo chegando perto de US$ 105 devido aos conflitos no Oriente Médio.
Para conter a alta dos combustíveis, o governo Lula zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano, a um custo de R$ 20 bilhões, e autorizou subsídios de até R$ 10 bilhões. Os efeitos sobre a inflação no médio prazo permanecem incertos, mas as projeções do boletim Focus indicam IPCA de 3,8% em 2027 e 3,5% em 2028.
Próximos passos e horizonte de atuação
Devido aos efeitos defasados da política monetária, o Copom já trabalha com a inflação do terceiro trimestre de 2027 em sua mira. O colegiado voltará a se reunir nos dias 28 e 29 de abril, no terceiro dos oito encontros previstos para o ano, onde deverá avaliar novos dados e o desenrolar do cenário global antes de decidir sobre os próximos cortes.



