Domaine de La Solitude renova tradição secular de Châteauneuf-du-Pape com práticas sustentáveis
Vinícola francesa renova tradição com práticas sustentáveis

Domaine de La Solitude renova tradição secular de Châteauneuf-du-Pape com práticas sustentáveis

Florent Lançon, representante da oitava geração do Domaine de La Solitude, está liderando uma revolução na produção de vinhos em uma das regiões mais icônicas da França, Châteauneuf-du-Pape. Com um compromisso firme com práticas orgânicas e regenerativas, ele adapta blends ao clima em mudança, valoriza o terroir e impulsiona a produção de vinhos brancos, buscando sempre elegância e equilíbrio em um mercado global cada vez mais exigente.

Herança papal e inovação moderna

A história do Domaine de La Solitude está profundamente entrelaçada com a do antigo reino papal de Avignon, onde os papas, durante seu exílio de 1309 a 1377, decidiram criar um "castelo novo" cercado de vinhas para suportar os verões provençais. Florent Lançon, descendente dos Barberini, a mesma linhagem do papa Urbano VIII, herdou essa tradição rica, mas optou por modernizá-la de forma sustentável.

Após estudar enologia em Montpellier e trabalhar na Austrália e Nova Zelândia para aprimorar seus conhecimentos, Lançon assumiu a vinícola após a morte de seu avô, com a condição de mudar a forma de cultivo. Ele introduziu práticas como o plantio de árvores entre as vinhas, o uso de ovelhas como roçadeiras naturais e a semeadura de outras espécies para promover a biodiversidade.

Produção equilibrada e distribuição estratégica

Atualmente, o Domaine de La Solitude produz cerca de 500 mil garrafas por ano, um volume calculado para manter a identidade sem perder relevância. A distribuição é cuidadosamente planejada: 70% são exportados, com 30% ficando na França, 20% no resto da Europa e 50% fora do continente, incluindo mercados como Canadá, Estados Unidos, Ásia e, gradualmente, o Brasil.

Os vinhos da propriedade, como o Tradition – Châteauneuf-du-Pape Rouge e o Famille Lançon Bellecoste – Gigondas Rouge, são conhecidos por sua estrutura encorpada e taninos elegantes, prontos para consumo imediato sem necessidade de longa decantação. Para um acesso mais acessível ao terroir, os Côtes du Rhone são oferecidos a preços mais baixos.

Adaptação ao clima e foco no equilíbrio

Em vez de se preocupar excessivamente com o aquecimento global, Florent Lançon ajusta os blends de uvas para manter o equilíbrio alcoólico e a frescura. A Grenache, uva central de Châteauneuf, é complementada com variedades como Cinsault, Counoise e Vaccarèse, e até pequenas quantidades de uvas brancas são introduzidas para adicionar acidez.

Anualmente, a prática da "complantation" permite a substituição natural de cerca de 1% das vinhas mortas por novas variedades, criando um mosaico vivo de uvas. Isso garante que o estilo permaneça fiel ao DNA da casa, com vinhos que podem ser apreciados jovens ou após anos de guarda.

Crescimento dos vinhos brancos e visão de futuro

Enquanto os tintos dominam a produção, os brancos de Châteauneuf-du-Pape estão ganhando destaque, representando atualmente 9% da produção. Florent Lançon visa aumentar essa participação para 30%, respondendo a mudanças nos hábitos de consumo, como menos carne e mais pratos ácidos.

No entanto, expandir a produção de brancos é um desafio, pois as vinhas exigem tempo para amadurecer. A gestão das alocações de mercado é feita com diplomacia, redistribuindo entre regiões como Japão, Taiwan e Brasil, onde o interesse por brancos está crescendo lentamente.

Em um mundo que valoriza vinhos leves, Châteauneuf-du-Pape serve como um lembrete de que é possível ter corpo sem sacrificar a elegância, desde que o equilíbrio seja a prioridade absoluta.