Quatro gerações de mulheres mantêm tradição do café em fazenda centenária de Jeriquara
Mulheres comandam fazenda de café centenária em Jeriquara

Quatro gerações de mulheres mantêm viva tradição do café em fazenda centenária de Jeriquara

Em Jeriquara, no interior de São Paulo, uma fazenda centenária se destaca não apenas pela longevidade, mas pela força feminina que a conduz. Há mais de 100 anos, a propriedade preserva a tradição da produção de café, atualmente comandada por quatro gerações de mulheres da mesma família, um exemplo raro de sucessão e resiliência no agronegócio brasileiro.

A matriarca e a gestão moderna

A matriarca Juliana de Oliveira, com impressionantes 103 anos, é a testemunha viva da história da fazenda. Ela chegou ao local quando a área era predominantemente mata fechada e, junto com o marido, iniciou o cultivo do café, criando os filhos debaixo dos pés de café, como ela mesma relata. Hoje, a gestão da produção está sob a responsabilidade de Bruna Fernandes Malta, neta de Juliana, que coordena todas as etapas da cadeia produtiva.

Bruna explica: "A gente trabalha com a cadeia completa do café. Eu acompanho tudo aqui dentro da propriedade. Hoje, faço o gerenciamento da produção, divido as funções e coordeno tudo o que acontece na lavoura. É uma lavoura comandada por mulheres." Além dela, participam ativamente a filha Sueli Fernandes Malta e a bisneta Maria Rita, formando um quarteto feminino que atravessa décadas.

Evolução tecnológica e expansão

A fazenda, que soma mais de 130 hectares de área plantada, passou por uma transformação significativa desde seus primórdios. No início do século passado, o trabalho era manual, com enxadas e colheita feita à mão, conforme Juliana recorda: "No meu tempo não tinha esse maquinário todo. Era tudo na enxada, a colheita era na mão. Foi muito difícil no começo."

Com o tempo, a introdução de máquinas e técnicas modernas facilitou o cultivo, mas a base continua sendo o cuidado diário. A propriedade faz parte da rota do café do "EPTV nas Férias", uma série de reportagens que destaca atrações turísticas na região, evidenciando a importância cultural e econômica do local.

Contexto histórico da Alta Mogiana

A história da família se entrelaça com a da Alta Mogiana, uma das principais regiões cafeeiras do Brasil. Localizada na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, a região se desenvolveu graças à antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que escoava a produção a partir do século XIX. O pesquisador Otávio Henrique da Silva Lemes destaca que o café tem uma história complexa, movida inicialmente pelo tráfico de pessoas negras, mas que impulsionou a economia local.

Atualmente, a Alta Mogiana é reconhecida pela produção de cafés especiais, beneficiada por solos de origem vulcânica e altitude elevada, ideais para o cultivo do café arábica. "Hoje em dia o café da nossa região é muito admirado", afirma Otávio, ressaltando a qualidade única dos grãos.

Turismo rural e legado familiar

Além da produção, a fazenda investe no turismo rural, oferecendo visitas que custam R$ 200 por pessoa, com café da manhã e almoço inclusos. O roteiro permite conhecer todas as etapas do café, da lavoura à xícara, atraindo interessados em experiências autênticas.

Para Dona Juliana, ver o crescimento da lavoura é a realização de um sonho. "Quando eu olho pra isso aqui, eu fico feliz e agradeço muito a Deus. Aquilo que a gente tinha vontade, a gente conseguiu. O café vai continuar, e a família também vai continuar aumentando", conclui a matriarca, simbolizando a perseverança e o amor pelo café que atravessa gerações.