Café brasileiro se transforma: de grão a cookies, mel e cosméticos
Café vira cookies, mel e cosméticos no Brasil

Café brasileiro se transforma: de grão a cookies, mel e cosméticos

O café deixou de ser apenas uma bebida quente para o consumidor brasileiro, evoluindo para uma matéria-prima versátil que impulsiona a inovação no agronegócio. Produtores rurais e empresários estão explorando novas formas de uso, como cookies, mel e cosméticos, em resposta a desafios econômicos, como as tarifas aplicadas e retiradas pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Essa diversificação ajuda a garantir destinação para a produção mesmo em tempos de intempéries econômicas, fortalecendo a resiliência do setor.

Inovação a partir da casca do café

Durante a Semana Internacional do Café (SIC), realizada em novembro em Belo Horizonte, visitantes puderam degustar cookies feitos com casca de cafés robustas amazônicos finos. A pesquisa foi conduzida pela engenheira de alimentos Lívia Lacerda de Oliveira, professora na Universidade de Brasília (UnB), que foi instigada pelo pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia. "Nunca tinha pensado, e a casca até então era resíduo. Em algumas pesquisas de literatura vi que faziam farinha, mas sempre usando quantidades muito ínfimas, 5%, 10%. O máximo que achei foi 15%, e a gente conseguiu atingir 30% de substituição da farinha de trigo, sem nenhum aditivo", afirmou Lívia. A patente do estudo já foi registrada, marcando um avanço significativo.

Além dos cookies, foi apresentado um chá (infusão) derivado da casca do café, e méis obtidos em lavouras cafeeiras foram degustados. O pesquisador da Embrapa destacou: "Estamos trabalhando no chá, que tem um perfil de diversidade sensorial gigante. Está em fase de desenvolvimento. Já é bastante utilizado em algumas cafeterias, bem nichado, mas agora a gente está estudando quimicamente, sensorialmente, vendo todos os critérios". Essas inovações demonstram como subprodutos antes descartados ganham valor agregado.

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Expansão para cosméticos e outros produtos

Nos corredores da feira, cafeicultoras observavam itens de beleza derivados do café, enquanto produtores de cafés especiais, cervejas com grão como destaque e variados drinques atraíam atenção. A farmacêutica e bioquímica Vanessa Vilela fundou a Kapeh em 2007, oferecendo produtos como perfumes com café em sua composição. A produtora Maria Oliveira, que cultiva café com marido e filho no sul de Minas Gerais, comentou: "Muito interessante ver que o café tem outras aplicações que não só a bebida, isso abre um leque grande para nós, que produzimos".

Celírio Inácio da Silva, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), enfatizou que essa diversificação é uma tendência crescente. "Do café você aproveita tudo, tudo do café você pode comer. E o valor agregado do café é uma conta que todos fazem para qualquer produto. Se eu tenho um café que vai servir para fazer café gelado, para fazer cosméticos, para fazer shampoo, para fazer aromatizante, eu vou ter muito mais possibilidade de usar aquele café. O produtor pode dizer 'vem cá, qual é o custo da saca [de determinada qualidade]? Se eu vender para uma indústria de cosméticos, terei maior valor agregado", explicou.

Mercado em transformação e exemplos internacionais

O executivo citou a China como exemplo, onde o consumo de café aumenta com formas não tradicionais, como café com melancia ou laranja. "É o café diferenciado, muito café gelado. Tem outras formas de beber o café. O jovem tem entrado no mundo do café e ele tem que ter uma bebida própria. Nem sempre é o café quente", afirmou. Durante a SIC, marcas brasileiras apresentaram novidades, como a Nescafé, que pelo segundo ano levou café solúvel para beber gelado, com opções como água com e sem gás e água tônica.

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Na Três Corações, principal player do mercado nacional, 70% do faturamento vem do café torrado e moído, e o restante de produtos como capuccinos e cafés solúveis. Pedro Lima, presidente da empresa, destacou: "Dentro dos cafés torrados e moídos, 3% hoje são cafés especiais. É um volume considerável, basta ver que os cafés especiais têm crescido mais de 20% anualmente no portfólio nosso". Os canéforas (conilon e robusta), com sabor diferente da arábica, surgem como opção para diversificação. Caio Alonso Fontes, diretor da Espresso&CO, realizadora da feira que reuniu 27 mil pessoas de 33 países e gerou cerca de R$ 150 milhões em negócios, concluiu: "Ele está numa equação de preço, com qualidade, posicionamento de produto e é uma ferramenta que pode ser trabalhada na equação climática. Então a gente tem as ferramentas".