Acordo UE-Mercosul: agricultor premium será maior beneficiado
Acordo UE-Mercosul beneficia agricultor premium

A tão aguardada assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul está marcada para este sábado, 17 de janeiro de 2026, em Assunção, no Paraguai. O evento representa um marco nas relações entre os blocos, mas especialistas alertam que os efeitos práticos no comércio não serão imediatos.

O caminho após a assinatura e os beneficiados

Com o aval da Comissão Europeia já concedido, o texto do acordo segue agora para análise do Parlamento Europeu. Lá, precisará obter maioria simples entre os 720 parlamentares para ser ratificado. Mesmo após a aprovação parlamentar, uma etapa crucial será a adaptação às rigorosas regras sanitárias de cada país europeu. Esta fase é considerada decisiva para que os produtos sul-americanos possam, de fato, acessar o mercado europeu.

No cenário do agronegócio brasileiro, os analistas apontam que os maiores ganhadores serão os produtores de itens de alta qualidade e valor agregado. Gustavo Junqueira, especialista do setor, destaca que cafés especiais, carnes rastreadas de alto padrão, frutas processadas, sucos e ingredientes para a indústria alimentícia europeia concentram o maior potencial.

"O acordo favorece qualidade, marca e rastreabilidade — e não volume", avalia Junqueira. Ele completa: "A Europa paga mais por valor agregado, mas exige regras rigorosas. Elas podem ser uma armadilha ou um passaporte global, dependendo da execução por parte dos produtores".

Impacto econômico e os riscos regulatórios

Para o mercado financeiro, o acordo carrega um peso que vai além do econômico, atingindo também a esfera geopolítica. Carlos Holtz analisa que, apesar de um cronograma longo de redução gradual de tarifas ao longo de vários anos, a expectativa é positiva para as exportações brasileiras.

Setores como carnes, soja e produtos industriais devem ser impulsionados, o que pode contribuir para o fortalecimento do superávit comercial do Brasil nos próximos anos.

No entanto, os riscos permanecem, principalmente no campo regulatório. Exigências sanitárias e ambientais, além de possíveis contestações jurídicas no Tribunal de Justiça da União Europeia, ainda são obstáculos que podem atrasar ou limitar os efeitos práticos do que é considerado o maior acordo comercial já negociado entre os dois blocos.

Uma visão de longo prazo

A cerimônia de assinatura em Assunção é, portanto, mais um passo — embora fundamental — em uma jornada complexa. O acordo abre espaço para ganhos relevantes, mas continua longe de representar efeitos imediatos no comércio.

O foco para os exportadores brasileiros, especialmente do agronegócio, deve ser a capacitação para atender a um mercado exigente e disposto a pagar mais por produtos que cumpram critérios rigorosos de qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade. O sucesso dependerá da capacidade de transformar as exigências europeias em um "passaporte global" para outros mercados igualmente seletivos.