Após um quarto de século de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi finalmente aprovado pela maioria dos países do bloco europeu. A decisão histórica, tomada na sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, promete revolucionar as relações comerciais e gerar impactos econômicos significativos, especialmente para o agronegócio brasileiro. O setor de sucos cítricos é um dos que mais deve se beneficiar, com uma projeção de economia de US$ 320 milhões nos próximos cinco anos.
Uma longa jornada de negociações
As tratativas para este pacto comercial começaram ainda no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Foram necessárias 25 anos de discussões, idas e vindas, até que a maioria dos 27 Estados-membros da UE votasse a favor. A aprovação aconteceu com 15 votos a favor. Países como França, Irlanda e Polônia se posicionaram contra, temendo uma concorrência desleal em setores como carne bovina e cereais. A Itália, que inicialmente demonstrava resistência, surpreendeu ao aceitar o pacote de benefícios oferecido pela UE, decisão que ocorreu na quarta-feira, 4 de janeiro.
O acordo consolidará a maior área de livre comércio do mundo. Como parte do pacote, está prevista uma redução de impostos em investimentos que totalizam impressionantes R$ 280 bilhões para os países latino-americanos. A assinatura oficial do tratado está marcada para a próxima segunda-feira, 12 de janeiro, em Assunção, no Paraguai.
Impacto direto no agronegócio e no suco de laranja
Em entrevista ao Conexão Record News, Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR (Associação Nacional de Sucos Cítricos), destacou a magnitude do acordo para o Brasil. "Sem sombra de dúvida, é um acordo importantíssimo para o Brasil e para o agronegócio em particular", afirmou o especialista.
Netto detalhou que a expectativa para o setor de suco de laranja é de uma economia na casa dos US$ 320 milhões, o que equivale a aproximadamente R$ 1,7 bilhão na cotação atual, ao longo do quinquênio. Ele explicou que os ritos necessários para a implementação prática do acordo devem começar a vigorar ainda em 2026, embora os efeitos plenos na economia levem algum tempo para serem sentidos.
Questionado sobre um possível aumento nos preços internos devido ao crescimento das exportações, o diretor da CitrusBR foi enfático ao tranquilizar os consumidores. "80% da produção de laranja é destinada para a produção de suco para exportação. E o Brasil só tem uma disponibilidade tão grande por conta dessa grande indústria exportadora de suco de laranja. A exportação, na maioria das vezes, ajuda o consumo interno", esclareceu.
Padrões sanitários e uma via de mão dupla
O aumento do fluxo comercial traz à tona a discussão sobre qualidade e fiscalização. Netto ressaltou que o acordo possui um capítulo especial, chamado SPS, que detalha extensivamente as regras sanitárias e fitossanitárias. Ele garantiu que a produção brasileira já atende a todos os rigorosos padrões internacionais há décadas. "Pelo menos no setor de suco de laranja, atendemos já há 60 anos todas as regras internacionais que possuem altíssima exigência. E eu costumo falar que quem exporta para a União Europeia exporta para qualquer lugar do mundo", declarou, enfatizando a qualidade do produto nacional.
No entanto, o diretor alertou que o tratado é uma via de mão dupla. Assim como os produtos brasileiros ganharão mais espaço na Europa, itens europeus devem ficar mais baratos no mercado brasileiro, o que pode afetar setores locais da indústria. Esse ponto foi amplamente revisado durante as negociações para tentar amortecer os impactos.
Por outro lado, Netto vê um lado positivo nessa abertura: a possível redução no preço de máquinas e equipamentos industriais importados da UE. "Isso vai aumentar a produtividade da indústria nacional e facilitar com que haja um incremento, inclusive, da produção doméstica", concluiu, apontando para um ciclo virtuoso de modernização e crescimento.