Morre aos 92 anos Manoel Carlos, autor de novelas como 'Por Amor' e 'Mulheres Apaixonadas'
Manoel Carlos, autor de novelas da Globo, morre aos 92 anos

O Brasil perdeu um de seus maiores nomes da teledramaturgia. Manoel Carlos faleceu neste sábado, no Rio de Janeiro, aos 92 anos. O dramaturgo, produtor e diretor, conhecido carinhosamente como Maneco, era o autor de sucessos absolutos da TV Globo como "Por Amor", "História de Amor", "Mulheres Apaixonadas" e "Páginas da Vida". A morte foi confirmada nas redes sociais da produtora Boa Palavra, responsável pelo legado do escritor.

Uma vida marcada por tragédias pessoais e glórias profissionais

Enquanto construía histórias de amor e superação para milhões de brasileiros, a vida pessoal de Manoel Carlos foi marcada por uma sequência de perdas devastadoras. Ele enfrentou a morte prematura e trágica de sua primeira esposa, Maria de Lourdes, aos 37 anos, e de seus três filhos. Ricardo faleceu em 1988, aos 32 anos, portador de HIV. O primogênito, Manoel Carlos Jr., morreu de infarto em 2012, aos 58. O caçula, Pedro, fruto do terceiro casamento com Betty, teve uma morte súbita aos 22 anos, em 2014, quando o autor já tinha 81 anos.

Essas experiências profundas parecem ter alimentado a sensibilidade com a qual Maneco construía seus personagens, especialmente as mulheres fortes e sofridas que protagonizaram suas tramas.

Trajetória: do teatro amador ao coração das novelas das oito

A carreira de Manoel Carlos é um verdadeiro documentário da televisão brasileira. Nascido em São Paulo, em 14 de março de 1933, ele se conectou ao teatro ainda na escola e fez parte de grupos amadores. Sua estreia na TV foi em um programa de teleteatros da Tupi, dirigido por Antunes Filho, quando tinha apenas 18 anos.

Antes de se consagrar como autor de novelas, Maneco foi uma figura fundamental na era de ouro dos musicais na TV Record. Ele criou e dirigiu programas icônicos como "O Fino da Bossa", apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues, e foi um dos responsáveis por trazer a Jovem Guarda para a emissora. Também atuou no mercado fonográfico, dirigindo o histórico show "Construção", de Chico Buarque, e o festival Phono 73.

Na Globo, para onde foi em 1973 a convite de Jô Soares, participou da criação do "Fantástico" como diretor-geral. Sua estreia como autor de novelas na emissora foi com "Maria Maria" (1978). O salto para o horário nobre veio como colaborador de Gilberto Braga em "Água Viva" (1980). Seu primeiro grande sucesso solo foi "Baila Comigo" (1981).

O legado das Helenas e o merchandising social

A marca registrada de Manoel Carlos foram suas protagonistas chamadas Helena, mulheres da alta sociedade carioca que enfrentavam dramas onde o dinheiro pouco importava. De forma aleatória, ele começou a usar o nome em "Baila Comingo" e o repetiu em todos os seus folhetins seguintes, interpretado por atrizes como Regina Duarte, Vera Fischer e Christiane Torloni.

Seu estilo era o da crônica urbana, retratando o cotidiano da burguesia do Leblon. Mas suas tramas iam além do entretenimento. Maneco era um pioneiro no uso do merchandising social, abordando temas como câncer (em "Laços de Família"), síndrome de Down (em "Páginas da Vida"), alcoolismo e os desafios do envelhecimento, sempre com o objetivo de conscientizar o público.

Sua última novela foi "Em Família", em 2014, onde abordou a doença de Parkinson através de um personagem de Paulo José. Manoel Carlos convivia com o Parkinson há mais de uma década. Sua saída da Globo, em 2015, foi conturbada e, em setembro do ano passado, a Boa Palavra moveu uma ação contra a emissora por questões contratuais.

O velório do autor será restrito à família e amigos íntimos. A causa da morte não foi divulgada oficialmente. Manoel Carlos deixa um legado imensurável para a cultura brasileira, tendo moldado por décadas o imaginário afetivo de gerações com suas histórias de amor, dor e superação.