Cortejo de Iemanjá em Rio Branco celebra fé e cultura com maracatu e samba
Cortejo de Iemanjá em Rio Branco com maracatu e samba

Cortejo de Iemanjá ilumina Rio Branco com fé e tradição

As ruas do Centro de Rio Branco foram tomadas por velas, flores e o aroma marcante de alfazema na tarde desta segunda-feira (2), durante a celebração da 16ª Festa de Iemanjá. O evento reuniu filhos de santo e praticantes das religiões de matriz africana em uma manifestação que mistura devoção, cultura e resistência.

Programação e organização do cortejo

A concentração foi marcada para as 16h, em frente ao Memorial dos Autonomistas, com saída do cortejo prevista entre 17h e 17h30. Os participantes puderam levar velas, flores e oferendas em homenagem à Rainha do Mar, com entrega ao lado da Ponte Metálica, próximo à Orla da Base, contando com o apoio essencial do Corpo de Bombeiros.

Leandro Júnior, conhecido como Ogã Júnior e organizador do evento, explicou ao g1 AC que o cortejo é promovido há mais de 20 anos pelo Ilê Asé Yemonjá Sobá. Ele destacou que a celebração já se consolidou como uma manifestação cultural e religiosa significativa na capital acreana.

"A gente espera centenas de simpatizantes de toda Rio Branco e também de fora, entre eles filhos de santo de todas as casas. As oferendas serão entregues ao lado da Ponte Metálica, com todo o apoio necessário para recebermos o axé de Iemanjá", afirmou o ogã.

Apresentações culturais e significado espiritual

A programação do evento foi enriquecida com apresentações vibrantes de maracatu, samba e batuques tradicionais. Grupos como o Maracatu Pé Rachado e os Batuqueiros do Coco fizeram a primeira apresentação no cortejo deste ano, animando os participantes com ritmos ancestrais.

Leandro Júnior ressaltou que, embora as oferendas sejam importantes, o principal pedido é que as pessoas levem a fé e o coração aberto. "Mais importante do que qualquer oferenda é a fé e o coração aberto, para fazer desta, uma noite inesquecível", declarou.

Desmistificando Iemanjá: além do mar

Embora Iemanjá seja amplamente associada aos mares, o ogã explicou que ela também está ligada aos rios, especialmente em regiões não banhadas pelo litoral. Essa relação é reforçada pela saudação "Odô Iyá", que significa "Mãe do Rio".

"Saudamos Iemanjá dizendo 'Odô Iyá', que significa 'Mãe do Rio'. Logo, entendemos que é importante desmistificar que ela seja ligada apenas ao mar. Certamente ficou mais conhecida assim, devido aos escravos que tinham acesso mais fácil ao mar, que no Candomblé é comandado por Olokun. Desta forma, acreditamos que Iemanjá, junto com Oxum, também são dos rios e igarapés", detalhou Leandro.

Luta contra o racismo religioso e afirmação cultural

Neste ano, o cortejo trouxe como temática central a luta contra o racismo religioso. Ocupar as ruas da cidade se tornou um ato de afirmação e resistência para os povos de terreiro de Rio Branco.

"Quando a gente sai do terreiro e vai para as ruas, estamos ocupando o espaço público, que também é nosso por direito, mostrando a nossa fé e devoção, tanto a Iemanjá quanto aos demais Orixás. A ideia do cortejo é quebrar esse pensamento errôneo que muitas pessoas ainda têm sobre a nossa religião", disse o organizador.

Leandro ainda reforçou que o evento transcende a religiosidade, tornando-se um marco cultural da capital acreana. "A gente quebra uma barreira intercultural, e com isso, mostramos a nossa força, fé e amor pela espiritualidade", completou.

Contexto nacional de intolerância religiosa

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelam que a intolerância religiosa segue sendo uma violação recorrente no Brasil. Entre janeiro de 2025 e 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias, com impacto desproporcional sobre religiões de matriz africana.

As violações foram motivadas por intolerância religiosa, o que reforça a necessidade contínua de ações de prevenção, proteção e promoção da liberdade religiosa, conforme destacado pelo ministério. Este cenário sublinha a importância de eventos como o cortejo de Iemanjá em Rio Branco, que visam combater o preconceito e celebrar a diversidade espiritual.