Neste sábado (10), ganha vida um projeto dedicado a documentar, preservar e promover a memória de artistas LGBTQIAPN+ das regiões do interior de São Paulo. Trata-se do Centro de Memória de Artistas LGBTQIAPN+ no Interior de São Paulo, uma plataforma online que será lançada com um acervo inicial de 30 artistas catalogados, abrangendo seis cidades.
Um acervo vivo para reparação histórica
Idealizado pelo artista e curador Rafa Cavalheri através do projeto MAIS – Memória, Arte, Identidade e Sustentabilidade, o centro surge para preencher uma lacuna histórica. Cavalheri, natural de José Bonifácio (SP), percebeu em suas pesquisas acadêmicas e práticas curatoriais a falta de um mapeamento sistemático dessa comunidade artística fora dos grandes centros.
"São tantas camadas. Mas a primeira é a representatividade, porque falamos da existência de pessoas LGBT no mundo das artes, mas falta documentação sobre isso", afirma o idealizador. "Além da reparação histórica. Estamos falando de uma comunidade que sofre violência desde sempre".
O projeto, que começou a ser desenvolvido em 2022, foi viabilizado após ser contemplado por um edital do ProAC, permitindo a formação de equipe e a estruturação das ações. A plataforma segue padrões de catalogação museológica, compilando registros de obras, textos curatoriais e trajetórias pessoais.
Mapeamento artístico do interior paulista
O lançamento do mapa contempla inicialmente artistas de Campinas, Piracicaba, Limeira, Monte Mor, Iracemápolis e Espírito Santo do Pinhal. No entanto, o alcance do cadastro é mais amplo, incluindo também nomes de outras cidades do interior, como Ribeirão Preto, Sorocaba, Jundiaí e São José do Rio Preto, entre outras.
O catálogo online, disponível no site maismemoria.org.br, é dividido em seções que detalham a trajetória de cada artista, suas inspirações, técnicas utilizadas e participação em exposições. A ideia, segundo Cavalheri, é que o centro funcione como um "acervo vivo", dinâmico e em constante crescimento.
"A gente está descobrindo uma estética interiorana, de questões do interior, da vivência do interior, que só quem vive no interior percebe", comenta. "Antigamente a gente tinha essa visão de que o acervo era um lugar de depósito. Hoje em dia, a gente enxerga a potência que isso é".
Expansão e atividades formativas
Além dos 30 artistas que inauguram o mapeamento, há outros 136 artistas e coletivos já inscritos que serão incorporados gradualmente ao acervo digital. O projeto MAIS, no entanto, não se limita à catalogação.
Desde 2024, a iniciativa também oferece oficinas, aulas, curadorias e orientações gratuitas e online para artistas, divulgadas pelas redes sociais. Para 2025, o projeto conta com uma equipe ampliada, incluindo pesquisadoras e profissionais de design e programação.
Para Cavalheri, o centro é uma ferramenta poderosa para reconstruir narrativas. "Desenvolvemos uma nova narrativa em cima de histórias. Criamos um lugar para confrontar o que foi falado, escrito e construído em cima da violência", finaliza. "E, com essa documentação, conseguimos de alguma maneira mostrar que não é bem assim. As pessoas estão aqui, elas existem".