Aos 71 anos, o artesão mineiro José Donizetti da Silva carrega nas mãos e na memória a marca de mais de 11 mil sinos fabricados ao longo de uma vida dedicada a um ofício secular. Em sua fundição, quase escondida em Uberaba, no Triângulo Mineiro, ele molda não apenas bronze, mas também sonhos. O mais profundo deles é simples e tocante: ver um sino criado por suas mãos soar no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP).
Uma descoberta na adolescência que virou legado
A jornada de José com os sinos começou cedo, aos 13 anos de idade. Antes de encontrar sua vocação, ele tentou outros caminhos, inclusive ingressando na Escola da Força Aérea. No entanto, as dificuldades financeiras para sustentar a família que ficara em Minas Gerais o fizeram buscar um novo rumo. Foi então que, ainda adolescente, ele encontrou um mestre: um artesão italiano de 72 anos que havia se estabelecido em São Paulo e dominava técnicas ancestrais de fundição.
"Eu fui procurando aprender algo que pudesse ajudar minha família", relembra José, sobre a decisão que definiria sua vida. Com paciência e dedicação, ele absorveu os conhecimentos seculares herdados das antigas fundições da Itália, um saber preservado de geração em geração e que ele agora mantém vivo em solo brasileiro.
O som que emociona e conecta com o divino
Para José Donizetti, o sino é muito mais do que um objeto de bronze. É um instrumento de conexão espiritual. Ao falar do som que suas criações produzem, a emoção transborda em suas palavras. Ele remonta às origens históricas do objeto, citando um padre de cerca de 300 anos antes de Cristo que, ao criar uma peça, percebeu que ela emitia som.
"Quando eu escuto o som do sino, sinto como se fosse uma voz do além, um Deus chamando para o compromisso, seja para cumprir ou para respeitar", compartilha o artesão, revelando a profundidade de sua fé e a reverência com que trata seu trabalho.
Histórias que ecoam pelo Brasil e pelo mundo
Ao longo das décadas, José não fabricou apenas sinos, mas também colecionou memórias indeléveis. Uma das mais marcantes aconteceu durante a entrega de um sino para a Catedral de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Na ausência de um guindaste, a comunidade local se uniu para subir a pesada peça pela escadaria da igreja.
"De repente, beatas se aproximaram, ajoelharam e começaram a chorar, como se o sino fosse uma representação de Cristo", conta ele, emocionado com a cena que testemunhou. O alcance de seu trabalho ultrapassou fronteiras. Com orgulho sereno, José revela que o sino mais distante que já confeccionou foi enviado para o Japão, levando um pedaço de sua arte e devoção para outro continente.
O sonho que permanece e o conselho para o passado
Apesar de ter mais de 11 mil peças espalhadas por catedrais em diferentes partes do globo, o artesão mineiro alimenta um desejo que ainda não se realizou. Além de Aparecida, ele sonha em ver seus sinos no santuário de Trindade, consolidando sua ligação com os principais centros de fé do país.
Olhando para trás, para o jovem que um dia começou a aprender o ofício, José Donizetti tem um conselho: "Tenha força e perseverança, porque ele chegará onde deseja". Enquanto o dia de ver um de seus sinos em Aparecida não chega, ele segue em sua fundição em Uberaba, moldando o bronze e o tempo. Acredita, com a fé que sempre o guiou, que assim como o som de um sino viaja longe, os sonhos também encontram seu caminho para ecoar no mundo.