Incêndio em Boa Vista mata 80 galinhas e destrói sustento de agricultora durante queimadas
Incêndio mata 80 galinhas em Boa Vista durante queimadas

Incêndio em Boa Vista mata 80 galinhas e destrói sustento de agricultora durante queimadas

Um incêndio de grandes proporções matou 80 galinhas em meio às queimadas que assolam o bairro João de Barro, na zona Oeste de Boa Vista, capital de Roraima, nesta segunda-feira, 2 de março de 2026. O trágico episódio ocorre em um período crítico, no qual Roraima lidera o número de focos de calor registrados em todo o território nacional durante o mês de março, conforme dados atualizados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Desespero e prejuízo financeiro para família

O galinheiro atingido pelo fogo fica localizado na chácara da técnica de enfermagem e agricultora Kênia Graciela Berto, de 45 anos. Na tarde de segunda-feira, ela saiu momentaneamente para levar as filhas à escola e, ao retornar para casa por volta das 14 horas, deparou-se com a cena devastadora do incêndio consumindo sua propriedade. O prejuízo financeiro inicial é estimado em cerca de R$ 5 mil, mas as perdas emocionais e de sustento são incalculáveis.

"O que eu passei ontem foi desesperador, foi muito triste. Eu vi nossas galinhas todas torradas no fogo. Não contive minhas lágrimas quando fui até o galinheiro depois do incêndio. As galinhas estavam lá, no cercado, todas queimadas", relatou Kênia, visivelmente abalada.

Roraima lidera ranking nacional de focos de calor

Segundo os dados mais recentes divulgados pelo Inpe, Roraima soma impressionantes 147 focos de calor e ocupa o primeiro lugar no ranking nacional referente a março de 2026. O estado é seguido, com números significativamente menores, por Mato Grosso, com 14 focos, e Amazonas, com apenas 9 ocorrências registradas. Os focos de calor são definidos como zonas com ressecamento extremo e elevação crítica de temperatura, condições que criam o ambiente perfeito para o surgimento e propagação de incêndios florestais e urbanos.

Atualmente, Roraima enfrenta seu período de seca mais intenso, que tradicionalmente se estende até o mês de abril, agravando ainda mais a situação de vulnerabilidade a incêndios. O Brasil, como um todo, registrou 6.629 focos de calor em 2026, sendo 859 deles concentrados no território roraimense. Isso coloca o estado na terceira posição nacional, atrás apenas do Pará, com 1.250 focos, e do Maranhão, com 1.088 ocorrências.

Perda da segunda fonte de renda familiar

As galinhas representavam a segunda fonte de renda essencial para a agricultora Kênia Graciela Berto, que havia começado a vender ovos caipiras por encomenda após sofrer um acidente em 2024, que a afastou definitivamente de seu trabalho formal. Segundo seu relato emocionado, os ovos eram regularmente fornecidos a uma cooperativa local, que os distribuía para hospitais da região e para a merenda escolar de instituições públicas.

"A gente foi catando uma por uma, juntando todas e fazendo um lote de galinhas mortas, queimadas. Foi muito triste, desesperador. Era uma entrega boa, toda semana a gente entregava ovos. E, de repente, eu não tenho mais nada. Não tenho o que entregar, não tenho de onde tirar para receber no fim do mês", desabafou a agricultora.

Danos extensos além do galinheiro

Além do galinheiro completamente destruído, as plantações que ajudavam no sustento da casa também foram severamente atingidas pelas chamas. A tragédia familiar se ampliou quando a filha de Kênia, Adja Wendy, de 29 anos, revelou que encontraram mortos quatro cachorros que viviam na chácara e eram cuidados com carinho pela família.

"Ela adotava cachorros que eram abandonados ali na região do Anel Viário. A gente encontrou quatro mortos. Tinha mais, mas não achamos, então deduzimos que também morreram", contou Adja, acrescentando que a mãe está profundamente abalada e ainda não sabe quais serão os próximos passos.

De acordo com relatos familiares, o Corpo de Bombeiros conseguiu controlar e apagar o fogo antes que as chamas atingissem a residência principal, que já estava ameaçada pela proximidade do incêndio. "Ela construiu tudo com muito esforço. Criava os animais com carinho e cuidado. Perder tudo de uma hora para outra é muito difícil. No momento, ela está recolhendo o que restou dos animais para enterrar. A família é unida e vai tentar ajudar, mas ela ainda não sabe se vai reconstruir ou voltar para a cidade", explicou a filha.

Contexto histórico das queimadas em Roraima

Vale destacar que, em 2024, Roraima registrou um recorde histórico alarmante de focos de calor, com 5.358 ocorrências documentadas. Este foi o maior número desde 1998, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais iniciou oficialmente o monitoramento sistemático das queimadas na região amazônica. Naquele ano crítico, a fumaça densa dos incêndios encobriu completamente o céu de Boa Vista e de diversos municípios do interior por vários dias consecutivos.

A chamada "cortina cinzenta" de poluição chegou a provocar a suspensão emergencial de aulas em escolas públicas e privadas, como medida preventiva para evitar a exposição excessiva de estudantes aos poluentes atmosféricos. Este cenário histórico serve como alerta para os riscos recorrentes enfrentados pela população roraimense durante os períodos de seca intensa e queimadas descontroladas.